Por que não somos solidários

Fernando Araújo
Advogado, professor, mestre e doutor em Direito. É membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras Jurídicas - APLJ.

Publicação: 31/01/2018 03:00

A letra da música de Gilberto Gil certifica que há uma diferença abissal nas condições de vida entre os homens: “Oh! Mundo tão desigual. Tudo é tão desigual. Oh! De um lado esse carnaval. De outro a fome total”. A chave para abrir a porta e descobrir o que está dentro desse quarto de mistério, porque é assim, talvez esteja na filosofia. É ela que nos aponta, por suas diversas doutrinas, os caminhos que escolhemos para trilhar. Para alguns pensadores, os homens são desiguais em essência e por isso uns comandam e outros obedecem; uns devem ser escravos, outros senhores; Alguns devem ter muitos bens materiais e os demais o indispensável ou nem isso. E para produzir a conformação dos desabastados em face dessas doutrinas, elas apresentavam argumentos de persuasão. Nietzsche, com a sua “filosofia do martelo”, refletiu sobre essa questão moral. Ele, que ao contrário da maioria dos filósofos via o niilismo como presença de princípios e não ausência de valores, expôs suas razões. Na sua maneira de ver as coisas, Platão foi um niilista e tem sua parcela de culpa pelo mundo ser tão desigual, na medida em que venerava o além em detrimento do aqui e agora. Aristóteles teria sido outro, ao defender a tese do cosmo, do mundo organizado, em que cada pessoa já nasce com uma vocação predeterminada. E, por fim, os monoteísmos, pregando a existência de céu, paraíso. Um mundo perfeito fora da realidade física. Martelava Nietzsche: “Inventaram o ideal para negar o real”. Por isso dizia que não esperassem dele erigir novos ídolos, todos com pés de argila. Denunciou o que considerava muletas metafísicas. Daí ter inferido que uma sociedade sem classes, como previa Marx, é o mesmo paraíso cristão. Ambos inalcançáveis. Claro, isso é uma maneira de pensar. Não esgota a questão de fundo que aparece no título do artigo. Até porque, Nietzche, como homem do século XIX, apesar de ter estudado profundamente a Grécia clássica e os pré-socráticos, foi marcado pela crença na ciência. Vivenciou um importante momento de conflito entre arte, cristianismo e ciência. Isso o levou a dizer: “Não sou um homem, sou uma dinamite”. Assim, não obstante as diversas críticas feitas por ele e outros ao Cristianismo, o Ocidente se diz Cristão, mas não professa seus ensinamentos. Há um descompasso, uma incoerência, entre o discurso e a prática dos que se apresentam como cristãos, pois sua doutrina é humanista e não tolera a miséria, a desigualdade e muito menos a opressão. Também há incoerência entre os que se dizem humanistas ateus, céticos ou agnósticos. Quando estão no poder, não têm o menor pejo em coonestar com políticas públicas que oprimem o seu semelhante. O fato é que o capitalismo, que na sua gênese apresentou uma mensagem humanista e civilizatória, foi se transformando em uma esfinge. Não mais apregoa a felicidade geral de todos, senão de uns poucos. Virou uma espécie de religião laica, com dogmas rígidos e indiferentes aos sofrimentos dos que devia servir. E o que é pior é que as chamadas democracias do mundo fazem parte desse sistema. Mas são poucas as que enfrentam o seu modus operandi. Apesar de Nietzsche ter dito que o primeiro, último e único cristão do mundo morreu pregado numa cruz, cremos, seguros nesses valores, que é possível sim um mundo mais justo, solidário e humano. Porém é preciso luta. Em nosso caso particular, o primeiro passo é não votar nos fariseus, aqueles que falam como bons, mas são apenas vaidosos e arrogantes. Eles são meros saduceus, fazendo propaganda de uma falsa caridade. E tenho fé, pois como dizia Cícero, “O povo, mesmo quando mergulhado na ignorância, pode compreender a verdade”. É isso.

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