Estudar Flaubert à luz de Proust na Ficina

Raimundo Carrero *
raimundocarrero@gmail.com

Publicação: 29/01/2018 03:00

O francês Gustave Flaubert é, sem dúvida e sem questionamento, o mais importante reformulador do romance universal que, na sua mão, atingiu a imensa qualidade de obra de arte absoluta, o que desagradava o grande russo Tolstoi, para quem a literatura deve ter por objeto o Bem e não o Belo como estabelece a estética Clássica. Ambos gênios da ficção, tornaram-se os exemplos do grande romance político com Guerra e Paz e Educação Sentimental, notáveis na composição e na temática.Com realizações opostas. Mas  nem por isso um patrulhou o outro.

É curioso destacar, sobretudo, que ambos rastrearam o mesmo caminho, embora com objetivos diferentes.  Por isso escreveram livros abordando conteúdos idênticos – Tolstoi trata da luta dos russos contra o exército napoleônico em Guerra e Paz, destacando a força messiânica do seu povo,  enquanto Flaubert, recorrendo a estratégias narrativas brilhantes coloca no pano de fundo ficcional a história da França contemporânea ao tempo em que escrevia e daí a completa diferença entre os dois, com prioridade para a técnica em absoluto. A história era apenas um artifício.

Mas é preciso destacar que Educação Sentimental representou, a princípio, um grande fracasso e teve que ser reescrito cinco anos depois do lançamento. Mesmo abrindo caminho para a criação, por assim dizer, do romance técnico e estrutural, o francês considerava fundamental uma tese de conteúdo: “Quero escrever a história moral dos homens de minha geração”, afirmava.

O romance narra, sobretudo, a   luta de todos contra todos pela escalada social com base em aparências forjadas”, casamentos de conveniências, alianças interesseiras, intrigas e aspirações forjadas.” informa Maria Rita.

Portanto, “descreve um mundo em que a mobilidade social depende mais de casamentos convenientes do que o sucesso dos empreendimentos pessoais. Por sinal, este é o pano de fundo da metade das tramas do grande romance oitocentista.”, conforme atesta a psicanalista Maria Rita Kehl no prefácio à recente edição brasileira.

Aliás, destaco, justamente, esta recente edição da Peguin-Companhia das Letras, que passarei a debater com meus alunos na Oficina de Criação Literária, à luz do estudo de Marcel Proust, extremamente enriquecedor e belo. Estaremos em boa companhia nos próximo meses, atentos a tudo de mais importante que se fez na literatura universal. Um rico semestre com Flaubert, Tolstoi e Proust.

* Escritor e jornalista

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