O Outono do Líder Carismático

Maurício Rands *
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Publicação: 29/01/2018 03:00

O progressismo, como qualquer vertente política, está sujeito a momentos de ascensão e de descenso. Em todas as democracias. No Reino Unido renasceu quase das cinzas depois da hegemonia do estado mínimo de Thatcher e Major. Foram os tempos da ‘Terceira Via’ de Tony Blair e Gordon Brown, interrompidos pela volta dos conservadores em 2010 com Cameron e, agora, com Theresa May. Na Espanha, os socialistas tentam reconquistar o poder desde quando Zapatero foi derrotado pelo conservador Mariano Rajoy, em 2011. Na França, a terceira via de Macron substituiu a hegemonia do Partido Socialista que havia voltado ao poder com uma vitória avassaladora de François Hollande em 2012. Essa alternância tende a se repetir nas democracias maduras. Quando fora do poder, o progressismo vivo nesses países tem buscado redefinições. De líderes, mas principalmente de formulação teórica e programática. Quando essa reformulação é feita em profundidade, a volta ao poder resulta em força para reorientar os governos em direção a políticas públicas mais inclusivas e equitativas.

No Brasil ainda é cedo para prever todas as consequência da condenação de Lula. Mas não são poucos os atores e analistas que reconhecem ser muito difícil manter uma candidatura alcançada pela literalidade do artigo 1º, I, e,  da Lei das Inelegibilidades. A menos que a condenação criminal do TRF da 4a Região seja revertida no STJ ou no STF. Hipótese em que pouca gente aposta. Claro que Lula poderá registrar sua candidatura no dia 15 de agosto. Mas sem que sua condenação criminal tenha sido anulada pelo STJ ou STF, restará o caminho de tentar liminares ou habeas corpus para disputar ‘sub judice’. Se finalmente for mantida a condenação criminal ou não forem suspensos seus efeitos eleitorais,  sua candidatura terá registro negado ou terá seus votos declarados nulos. Tudo isso dificulta as alianças necessárias a uma candidatura presidencial. Essas incertezas já fizeram com que outras candidaturas do seu campo, como as de Ciro Gomes, Marina Silva, Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos tenham sido reafirmadas por seus defensores.

O outono do líder carismático torna provável um recuo eleitoral do lulismo e adjacências. Antes, havia disponível o atalho da força eleitoral do maior líder de massas que o Brasil já teve.  As vitórias eleitorais por ele impulsionadas  ampliaram o acesso ao aparato do estado e ao financiamento empresarial da política. Isso compensava o maior apoio do mundo do capital e das finanças tradicionalmente consagrado aos partidos de centro ou de direita. Também compensava a maior facilidade daqueles partidos em manipular o senso comum que permite a reprodução das ideias e valores do status quo.

Na conjuntura adversa, o progressismo precisará repensar uma nova cultura de governo e de ação política. Terá que fazer autocrítica sobre os erros cometidos em relação a temas como corrupção e concepção republicana do estado. Necessitará aprofundar o conhecimento teórico e prático sobre a desigualdade, a exclusão social, o funcionamento da economia, o meio-ambiente e o desenvolvimento brasileiro. E terá que formular um projeto viável de imediata reconstrução do país. Nesse processo, poderão surgir novos líderes e atores coletivos. Com o seu principal líder em declínio, vai ter que inventar modelos menos personalistas e populistas. Sem reproduzir o monopólio (por um partido hegemonista) das forças que querem reinventar uma agenda de justiça social e ampliar o protagonismo dos setores populares.

Isso pode propiciar uma primavera de uma nova cultura política progressista. Desde que se compreenda que entre o outono e a primavera há que saber atravessar o inverno. Sobreviver fora do poder pode ser um desafio para quem se acostumou ao controle das máquinas. Sejam as do estado, dos partidos ou de outras instituições. Mas pode fazer ressurgir um progressismo revitalizado em seu acervo programático e em suas práticas. E com lideranças capazes de fazer autocrítica e se reinventar.

* Advogado, PhD pela Universidade Oxford, Secretário de Acesso a Direitos da Organização dos Estados Americanos.
* Opiniões do autor, que não representam posições da entidade a que está vinculado

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