A dor que o radicalismo não vê

Alexandre Rands Barros *
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Publicação: 27/01/2018 03:00

Lula condenado. O Brasil se divide em dois grupos principais. Os que concluem que há fragilidade das instituições e por tal a condenação é errada e apaixonadamente insistem na inocência do presidente. Há aqueles que acreditam que as instituições funcionaram e por tal ficam felizes com a condenação do nosso ex-presidente. Porém, há aqueles que acreditam que as instituições funcionaram, mas que se entristecem diante da condenação. O fortalecimento das instituições, cujas fragilidades sempre consistiram numa das fraquezas de nossa democracia, é algo realmente a se comemorar. A condenação de Lula passa aí a ser mais um sinal desse fortalecimento, junto com a prisão de políticos importantes como Sérgio Cabral, Anthony Garotinho e Geddel Vieira, de empresários importantes como Marcelo Odebrecht, Eike Batista, e Joesley Batista, e altos executivos do setor público, como Aldemir Bendine (ex-BB e ex-Petrobras) e Paulo Roberto Costa (Petrobras).

Entretanto, não há dúvida que Lula entrou na política como um idealista, que realmente queria mudar o Brasil. Sendo presidente, trouxe para o centro dos debates nacionais preocupações importantes, como a fome e a miséria. Desenvolveu políticas sociais fundamentais para aliviar a pobreza no país, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada. Também soube valorizar a educação como um todo, com programas importantes como o Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica, (Fundeb) e o Fies, além da expansão do ensino superior público, como forte interiorização. Sua condenação, infelizmente, deve enfraquecer essa preocupação social no país e atrasar o nosso desenvolvimento.

Sua gestão também teve várias falhas, como a não promoção de várias reformas que o país precisava, sendo exemplos a tributária, a política e a trabalhista, além da mudança fundamental no pacto federativo. Também absorveu formas antigas de fazer política, perpetuando-as, como a utilização exagerada do toma lá, dá cá no Congresso Nacional. Além disso, falhou ao dar asas a algumas ideias anacrônicas do PT, como o estatismo (valorização da burocracia e excesso de poder ao setor público) e o desprezo pela meritocracia, enchendo de pessoas sem qualificação a estrutura decisória da máquina pública, apenas por serem companheiros de partido. Para culminar nesse erro, colocou a ex-presidente Dilma Rousseff à frente de nosso país, sendo ela completamente despreparada, autoritária e arrogante. Tudo isso gerou uma ineficiência do setor público que custou caro aos nossos compatriotas, inclusive precipitando uma das maiores crises econômicas pela qual o país passou na sua história.

Além de sucumbir aos encantos financeiros da corrupção, o ex-presidente também se contagiou com o personalismo típico de quem chega ao poder. Passou a valorizar e dar poder aos puxa-sacos de plantão, que sempre cercam os governantes. Seu excesso de simpatia com o ex-presidente José Sarney é um exemplo disso, mas vale também para o excesso de poder permitido a Renan Calheiros, Romero Jucá e Dilma Rousseff, por exemplo. Ou seja, a tristeza e decepção com o presidente vão além de seus atos de corrupção, segundo constatou o Judiciário.

Ver a provável prisão de um ex-presidente da República que entrou na política com o propósito idealista de mudar o país, tornando-o um Brasil de todos, não só de uma aliança entre a elite e o alto escalão da burocracia pública, não é algo que deveria alegrar ninguém. Deve ser lamentado por causa da óbvia conclusão que mesmo outrora idealistas que poderiam mudar o Brasil sucumbem aos encantos do dinheiro ou patrimônio fácil, sem a contrapartida do devido esforço e competência produtiva, e vendem o Brasil da maioria aos segmentos da elite que estão prontos a trocar os anseios individuais desses inicialmente idealistas por recursos fáceis nas “tenebrosas transações” com os governos. É lamentável perceber que alguns dos que nos “deram a ideia de uma nova consciência e juventude, tá em casa (ou na prisão agora), guardado por Deus e contando vil metal,” como identificou Belchior em sua música.

* Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

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