Navios e nossa história

Luiz Augusto C. Araújo *
augustopilotrecife@gmail.com

Publicação: 26/01/2018 03:00

Há pouco tempo o Brasil tinha a segunda maior frota mercante do mundo, em quantidade de navios e qualidade de serviço!

Dia 21 p.p., manobrei o navio brasileiro “Fernão de Magalhães”, conteneiro que atracou no Tecon-II. A Aliança Navegação, braço brasileiro da Hamburg Sud, alemã, faz a cabotagem brasileira de Manaus até os portos do Mercosul. A globalização deixou o Brasil fora da atividade do transporte marítimo, que fatura cerca de 50 bilhões de dólares anuais, bem em “baixo das nossas barbas”...

Essa frota tem nomes dos grandes descobridores, como: Pedro Álvares Cabral, Américo Vespúcio, Vincente Pinzòn, Fernão de Magalhães, Diego Garcia, entre outros.

O português Fernão de Magalhães contratado pelo Rei Felipe II da Espanha, por aqui passou à procura de terras novas para a Espanha. Desceu toda a costa atlântica, cerca de 11 mil quilômetros, descobrindo a ligação entre o Atlântico e o Pacífico, no local hoje denominado de “Estreito de Magalhães”, em sua homenagem! Na minha opinião um dos maiores feitos dos descobridores de novas terras de todos os tempos, não só por isso, mas também pelo fato de subir a costa pacífica e descobrir o Chile e os outros países até o atual Panamá! Uma vez nessa localidade, em determinado momento, resolveu fazer uma incursão rumo leste, descobrindo a mais estreita faixa de terra das Américas, ou seja 95 quilômetros, onde hoje se localiza o canal do Panamá. O marco dessa façanha lá está comprovando essa espetacular descoberta! Após zarpar desse local, foi dar com os costados nas Filipinas, assim nomeada em homenagem ao Rei Felipe que financiava a aventura.

Aqui no Cabo de Santo Agostinho tivemos a presença do navegador espanhol Vincente Pinzòn que desembarcou no Cabo de Santo Agostinho, antes de Pedro Álvares Cabral encontrar Porto Seguro na Bahia. O fato ensejou a mediação da Igreja Católica, com seu poder “inquisitório”, estabeleceu a divisão da América do Sul entre portugueses e espanhóis através do Tratado de Tordesilhas. Cabral, após essa jornada foi bater na China e na Índia, fundando as colônias portuguesas de Macau e Goa respectivamente.

Sem querer estabelecer polêmicas, aqui declaro, baseado nas histórias dos descobrimentos, que o Brasil teve três presenças ao mesmo tempo, a saber: Fernão de Magalhães, que sem sombra de dúvidas escalou em algum local da nossa costa, Vincente Pinzòn, que esteve antes de Cabral no Cabo de Santo Agostinho e Cabral pelas bandas da Bahia, precisamente nessa ordem de chegada.

Hoje, manobrando o navio Kuki Strait, cuja tripulação e comandante são filipinos, aconteceu algo interessante; o Capitão simplesmente vendo o nome do navio brasileiro Fernão de Magalhães que manobrava n’outro píer, chamou minha atenção contando da odisseia daquele homem que descobriu o seu país com um barco movido a velas e sem instrumentos tão necessários a uma boa navegação... Ao mesmo tempo contou-me que das 190 ilhas dos arquipélago filipino, umas delas de nome Cibu, tinha um líder local que não satisfeito com a presença espanhola, e do navegador Magalhães, travou uma batalha que culminou com a decapitação desse herói dos descobrimentos! O nome do matador de Magalhães é Lapu Lapu, que hoje é considerado herói nacional por uns, e vilão por uma parte da população, mais ou menos originária da presença espanhola no local.

Fim trágico e lamentável para um homem dessa envergadura...

A navegação tem sempre nomes interessantes para seus navios, a extinta URSS usava nome de seus heróis para batizar seus navios que ostentavam a foice e o martelo nas suas chaminés. O Brasil já teve navios do Lloyd brasileiro com nomes de todos os países das 3 Américas! A ideia da Aliança Navegação de homenagear os grandes descobridores, é bonita, como também os navios da Petrobras que estão sendo fabricados no Estaleiro Atlântico Sul, com nomes dos abolicionistas, com um detalhe estranho que é a ausência do nome do nosso Joaquim Nabuco!

Magalhães ganhou igreja e cruzeiro em sua homenagem erigidos na ilha onde morreu, e Lapu Lapu fama de herói, meio bandido...

* Prático da Barra Suape e Recife há 53 anos

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