A ilha de Algodoal e um Novo Ano Novo

Márcia Alcoforado *
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Publicação: 25/01/2018 03:00

Fui a Belém do Pará em novembro. Conferencista do Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, meu marido lá estava. A ideia era conhecer no fim de semana a ilha de Algodoal, de que só tinha ouvido falar através de uma colega alemã. Bem menos badalada do que a de Marajó, essa professora apaixonada pelo Norte e Nordeste do Brasil me disse que, estando no Pará, entre uma e outra não hesitasse em escolher a primeira. Acertada indicação. Algodoal é o nome mais popular da ilha de Maiandeua (mãe da terra em tupi-guarani) e também da maior das quatro vilas que na ilha existem. A vila é parte de uma Área de Proteção Ambiental (APA), primeira Unidade de Conservação litorânea do Pará. Por ter se tornado uma APA, não há permissão de tráfego de veículos de tração motorizada e os únicos meios de transporte utilizados pela população local e pelos turistas são bicicletas, barcos ou charretes. Passamos pouco tempo na ilha, tempo não suficiente para ver todas as suas belezas naturais, mas o bastante para nos encantar com as que vimos - misturando-se de forma mágica praias com variações de maré incomparáveis, manguezais, dunas, lagoas e um belo pôr do sol sempre sobre o oceano – e ainda nos surpreender com algo inusitado: o seu ambiente social. A simplicidade e a força da natureza, acredito eu, conspiram para moldá-lo. Todas as ruas são de terra batida e todas as casas são rústicas. As hospedagens não variam muito em preço, conforto e localização. Não há carros, prédios de luxo ou mansões e nem guaritas de segurança. Veranistas, turistas e locais acabam se misturando: “Todo mundo fica igual”. Como as opções de praias, restaurantes e bares também não é variada, à noite todos se encontram nas mesmas festas. Estas ocorrem à beira-mar ao ritmo de carimbós e reggaes. Círculos formam-se na areia da praia com pessoas “des-conhecidas”. Contaram-nos que este hábito vem da época em que na ilha não havia energia elétrica – esta só chegou lá em 2005 – e fazia-se então a roda em torno de uma fogueira. Confesso que não me lembro de ter vivenciado um encontro social tão inclusivo quanto este de Algodoal. Num círculo, sentada na areia, no meu país, falando a minha língua, lado a lado com brasileiros de diferentes idades, cores e sei lá que classes sociais. Encobertos apenas por um céu cheio de estrelas e com pouca lua não havia medo ou insegurança. Tampouco havia dúvida de que cada um ali tinha o seu lugar e ao grupo pertencia. Era como se estivéssemos ligados apenas e simplesmente pela nossa humanidade. O Brasil é um país profundamente desigual. Perseveramos em negar a maior parte da nossa população oportunidades de mobilidade social. Não por acaso vivemos sob uma tensão extrema. A Pesquisa Desigualdade Mundial 2018 desta vez incluiu dados sobre o Brasil no período de 2001 a 2015 e mostrou que quase 30% da nossa renda está nas mãos de 1% dos habitantes do país, a maior concentração deste tipo no mundo. No recorte com os 10% mais ricos, aparecem 55% da renda. Na sua última “Síntese dos Indicadores Sociais”, o IBGE divulgou as chances dos pobres ascenderem, em relação aos que já estão no topo da pirâmide social se manterem por lá: eles tem 14 vezes menos chances. E não se trata de meritocracia, o que é muito ruim para o nosso capital humano, fator crucial para o desenvolvimento econômico1. Desperdiçamos talentos, ao garantir privilégios aos mesmos e todos perdem. O pesquisador do Ipea, Rafael Osorio, responsável pela pesquisa não usa meias-palavras:“Não se recompensa esforço no Brasil, remuneram-se privilégios”. Já temos consciência dessa injustiça, a questão que permanece é como nos faremos representar e atuaremos de forma a fazer avançar realmente a adoção de políticas inclusivas, em especial aquelas que impulsionam de maneira significativa a escolaridade e a qualidade da educação básica. Talvez ainda haja tempo, mesmo que não muito, tempo para um Novo Ano Novo, tempo de aprender a lição que sabemos de cor.

* Professora Associada - Departamento de Economia/PIMES/ PPGEC. Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.

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