Tolstoi sempre polêmico ainda provoca as novas gerações

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 22/01/2018 03:00

A obra literária de Tolstoi, o grande Tolstoi, sempre causou inquietação nos críticos e ainda hoje é polêmica porque alguns estudiosos não encontram nela elementos artísticos, não lhe cabendo, portanto, a dimensão de obra de arte. O que o próprio russo alimentou ao escrever e publicar o artigo O que é arte?, transformado em livro, com outros artigos, que ganha uma nova edição da Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, com brilhante ilustração.

Nesse artigo, ele contraria todo o conceito de Estética, sobretudo o clássico conceito que aponta o Belo como único objeto a ser alcançado. Tolstoi oferece um novo conceito, indicando que o objeto da Estética não é o Belo, mas o Bem. Caberia ao artista destacar as grandes almas e os grandes momentos, exemplares em si mesmos. Uma visão mais teológica e menos artística, transformando o artista, assim, num missionário teológico. Daí a arte como missão, a apontar exemplos e grandezas sem resvalar para o Belo, onde surgem elementos do humano e do pecado, que é claramente o Mal.

Tudo isso considerando o conflito religioso do escritor russo que, de tão vigoroso e tão radical, terminou por levá-lo à excomunhão. Ele mesmo não gostava de ser chamado artista. Rejeitava a classificação de romancista porque seu projeto não estava direcionado para a história ou para o tema, mas para o conteúdo que destacasse o Bem. Apesar disso, Dostoievski dizia que Anna Karenina era uma verdadeira obra de arte. E escreveu artigo sobre o livro. Rejeitado, aliás, por Tolstoi. Para este, Guerra e Paz não era também um romance.

Para ele, devia ficar muito claro que Guerra e Paz procurava mostrar a missão religiosa e, de certa forma, salvadora, do povo russo. Anna Karenina não era um romance porque, como obra de arte tratava de um assunto absolutamente decadente e pecaminoso: o adultério. É preciso destacar que Anna Karenina tem nova e bela, edição, com tradução esmerada de Lúcio Cardoso, numa caixa que reúne também A morte de Ivan Ilitch, tradução de Marques Rebelo e o romance Ressureição, tradução de Cândido Jucá Filho.

Estes assuntos estão sendo amplamente debatido na nossa Oficina de Criação Literária para estudo da prosa de ficção, considerando a intimidade da narrativa em busca de uma definição de Estética e os rumos da literatura universal.

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