Eleições em 2018 nas Américas

Maurício Rands
* Advogado, PhD pela Universidade Oxford, Secretário de Acesso a Direitos da Organização dos Estados Americanos.
* Opiniões do autor, que não representam posições da entidade a que está vinculado.

Publicação: 22/01/2018 03:00

O continente americano passa por um calendário eleitoral dos mais relevantes. No final do ano passado, Honduras já havia reelegido o presidente Juan Orlando Hernández, em pleito até hoje contestado. E o Chile, o conservador Sebastián Piñera. Antes, a Argentina já havia encerrado o período dos Kirchner elegendo o conservador Mauricio Macri. Até agora, uma guinada à direita. Esses governos tentam retomar o crescimento depois da crise de 2015/2016 mediante políticas de equilíbrio fiscal. Nesse 2018 teremos eleições presidenciais e/ou gerais na Costa Rica (4/02), Paraguai (11/04), Colômbia (27/05), México (1º/07), Brasil (7/10) e Venezuela 12/18). A elas acrescentem-se as eleições de meio do mandato para o Congresso Americano, que podem retirar a maioria que o presidente Trump hoje detém nas duas casas.

A distância entre o eleitorado e a representação política atingiu recordes em toda a região. Os governantes ostentam baixos índices de aprovação. Têm dificuldade para se reeleger ou fazer o sucessor. No México, o presidente Henrique Peña Neto, um conservador do PRI, tem apenas 7% de aprovação. O esquerdista Andrés Manuel López Obrador, do MORENA, vai para sua 3ª disputa presidencial, agora com uma proposta econômica mais moderada. Atualmente ostenta o primeiro lugar nas pesquisas com 31% das intenções, seguido do centro-direitista Ricardo Anaya, do PAN, com 23%, e do candidato do presidente, José Antonio Meade (PRI), que tem 16%. Na Colômbia, o presidente Juan Manuel Santos, com 22% de aprovação, enfrenta dificuldades para fazer o sucessor na primeira eleição em que participará o Partido Fuerza Alternativa Revolucionaria del Común, nascido das Farc. Lidera as pesquisas o ex- prefeito de Medellín, Sergio Fajardo, de centro-esquerda, com 18,7%, que defende a reconciliação nacional e o combate à corrupção. Entre os favoritos também despontam o atual vice-presidente, Vargas Llera, de centro-direita, e Gustavo Petro, um esquerdista do movimento Colombia Humana, que já governou Bogotá. Além de Humberto de La Calle, do Partido Liberal, que defende uma coalizão ampla de todos os que apoiaram o processo de paz. No Brasil de tantas incertezas, a candidatura populista de direita de Jair Bolsonaro continua em 2º lugar nas pesquisas, embora já comece a dar sinais de deterioração. Até a Costa Rica, sempre vista como uma reserva de boas práticas, atualmente atravessa denúncias de corrupção, o caso do cementazo, que envolve a companhia chinesa de cimento Sinocem. Um candidato que se apresenta como anti-establishment - Juan Diego Castro, de um pequeno partido de oposição (PIN) está fazendo campanha à la Trump e já ostenta o primeiro lugar nas pesquisas com 18% das intenções.

Nas campanhas cresce o espaço para os outsiders ou que assim se apresentam. Atacar o establishment surge como tática muito forte, dada a desilusão generalizada com a política. Outras tendências também aparecem em quase todos os cenários. Primeiro, a disposição do eleitorado a buscar candidaturas que não sejam tolerantes ou envolvidas com a corrupção. Depois, a busca pelo combate mais severo à violência que coloca a América Latina com índices de homicídios maiores do que muitas regiões em guerra aberta. E, last but not least, o generalizado desejo dos povos das Américas por políticas de inclusão social e combate à pobreza e à desigualdade. Essa agenda de combate à corrupção, à violência e à desigualdade permeia todos esses processos eleitorais que vão reformatar o continente. Não parece difícil identificar esses anseios. O difícil é antecipar quais forças políticas e candidaturas vão ser capazes de convencer um eleitorado tão desiludido e indignado com a política convencional.

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