EDITORIAL » Desrespeito e impunidade

Publicação: 22/01/2018 03:00

Três tragédias no trânsito ocuparam boa parte do noticiário nacional. No Rio de Janeiro, um carro desgovernado invadiu o calçadão de Copacabana, atingiu 18 pessoas, matando um bebê. Laudo divulgado pela Polícia Civil mostrou que a moto estava a 240km/h na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Palácio do Planalto, quando acertou e matou uma mulher que acabara de sair do trabalho, em outubro. A mulher e o piloto morreram. Por fim, um casal de idosos atropelado e morto enquanto fazia caminhada na calçada no Lago Norte (bairro nobre da capital federal), perto de casa. Os três casos têm enredos diferentes, mas algo em comum: a alta velocidade dos atropeladores. Mas todos apresentam outros agravantes.

O do Rio negou ao Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RJ) que sofria de epilepsia. No questionário assinado por ele, no ato da renovação de sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH), afirmou nunca ter sofrido “tonturas, desmaios, convulsões ou vertigens”, bem como não ser acometido por doença neurológica. Na delegacia, o homem disse que teve um ataque epilético ao volante e perdeu o controle do carro. Declarou, ainda, ter tido um outro episódio semelhante há quatro anos e, desde então, ia ao médico de seis em seis meses e tomava medicamentos regularmente. A data, portanto, é anterior à da assinatura do questionário do Detran-RJ.

No caso da morte na Esplanada, apura-se a imprudência e irresponsabilidade do homem que pilotava a possante moto. A máquina estava a 240/km em uma via onde a velocidade máxima permitida é 60km/h. E quem a conduzia era um tenente do Exército, um profissional treinado para defender as lei, a ordem. Já na tragédia do Lago Norte, o velocímetro do carro que matou os dois idosos travou em 120km/h, o dobro do limite máximo da pista. Familiares disseram que a motorista é diabética. A investigação vai apontar a dinâmica, a condição da mulher ao volante e se ela poderia ter uma CNH. Imagens de câmeras de casas vizinhas que flagraram o acidente mostram o veículo vindo em alta velocidade pela ciclofaixa e subindo na calçada. Ele só parou no canteiro central, ao bater em uma árvore.

O Brasil é o quinto país do mundo em mortes no trânsito, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Ficamos atrás da Índia, da China, dos EUA e da Rússia. O Brasil registra cerca de 57 mil óbitos por ano, Outras 400 mil pessoas ficam com alguma sequela. Mais do que qualquer conflito em andamento. As colisões frontais responderam por quase um terço das vítimas mortas no país, seguidas pelos atropelamentos de pedestres (20%). Condutores ou passageiros de motocicletas são 18% dos mortos. A cada quatro mortes, três ocorreram em pista seca. Mais de 70%, em retas. Ou seja, em condições favoráveis ao motorista, mas, inclusive, ao irresponsável que acelera sem pensar na sua e na vida alheia.

A maioria dos acidentes é causada pelo condutor, ao desrespeitar alguma norma. Portanto, é evidente que há falha na formação dos motoristas e motociclistas, assim como é urgente intensificar a fiscalização e repensar as punições a quem causa tragédia no trânsito. O motorista da tragédia carioca, por exemplo, deixou a cadeia ontem, mesmo após mentir e dirigir com a CNH suspensa desde 2014. Por enquanto, está indiciado por homicídio culposo (sem a intenção de matar). Deve cumprir a pena em liberdade, após pagar uma multa e cestas básicas. Afinal, a impunidade é quase uma certeza para quem mata no trânsito brasileiro. Uma das principais razões para tantas mortes.

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