Bitcoin e moedas criptografadas

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicação: 20/01/2018 03:00

A bitcoin passa hoje por um fenômeno de bolha especulativa, que aumentou muito o seu valor em relação à maioria das demais moedas, mas que eventualmente deve passar por um processo de desvalorização e estabilização em um valor que seja socialmente razoável pela sua utilidade como meio de pagamento e justificado pela sua probabilidade de aceitação sem alto custo de busca por agentes dispostos a recebê-la. Nesse processo, as regras estabelecidas pelos bancos centrais em relação às moedas criptografadas poderiam ter sido melhor utilizadas pelos governos subnacionais para resolver parcialmente suas dificuldades de caixa e para prover a sociedade de maior liquidez e com isso ter reduzido o impacto perverso da crise fiscal da qual começamos a sair. Foi mais uma oportunidade perdida que poderia ter aplacado o sofrimento de muitos no passado recente.

As moedas, junto com as religiões, são as maiores ficções já criadas pelo ser humano, como bem argumentado por Yuval Harari no seu livro Sapiens. As moedas criptografadas, particularmente a Bitcoin, que é a principal delas, está evidenciando bem esse fenômeno. Elas são aceitas em transações comerciais simplesmente porque as pessoas acreditam que elas são aceitas. Não possuem valor intrínseco, que advenha de seu custo de produção e a demanda por elas. Entretanto, as moedas possuem valor definido em relação a outras moedas ou mercadorias pela sua oferta e demanda, tendo a primeira algum fator limitante para que seu valor não desapareça.

A aceitação dessas moedas criptografadas só ocorre quando se sabe que elas poderão ser utilizadas em outras transações. Como boa parte dos numerários que circulam na sociedade eventualmente passa pelos cofres públicos (os impostos estão pela hora da morte), o governo ou prefeitura importante pode emitir uma dessas moedas que ele crie para pagar fornecedores e assegurar que ela será aceita para pagamentos de impostos. Se eles embutirem um prêmio nos pagamentos realizados, os agentes deverão aceitar com mais tranquilidade essas moedas como pagamento. Além disso, eles podem criar um mercado secundário para elas, de forma que os agentes consigam liquidez imediata se assim precisarem. A oferta pode ser regulada pelo preço no mercado secundário. Com isso os fornecedores não terão prejuízos com a aceitação dessa moeda. Um governo como o de Pernambuco pode adicionar aí uma receita de algo como R$ 1,0 bilhão em um ano. Ou seja, poderia ter resolvido boa parte do seu problema de caixa neste ano e adicionaria liquidez na economia, possibilitando aumentar a produção no estado. Vale salientar que a partir de um certo estoque em circulação, a moeda não pode mais gerar grandes receitas para o governo, pois sua maior emissão pode comprometer sua aceitação. Contudo, R$ 1,0 bilhão a mais no caixa não faz mal a ninguém.

A crise do bitcoin pode reduzir esse impacto potencial, principalmente se seu valor não se estabilizar logo, pois a credibilidade dessas moedas pode ser afetada negativamente. Entretanto, vale lembrar que a regras do Banco Central para contemplar as moedas criptografadas também abriu espaço para moedas sociais, que podem ser em meio físico, como papel moeda. Por isso, ainda assim vale tentar, mesmo que se utilize duas versões, uma física e outra eletrônica, para evitar que toda a preparação seja destruída pela perda de credibilidade por causa de uma crise da bitcoin. Os agentes econômicos pernambucanos urgem por crédito para que suportem os atrasos nos seus pagamentos que têm sido gerados principalmente por causa de atrasos de pagamentos do governo do estado e prefeituras. Ficar só na lamentação e falsos discursos é que não vai resolver os nossos problemas imediatos. Temos que encontrar soluções menos padrões e a apresentada aqui pode ser uma delas.

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