Brasília 2018

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 09/01/2018 03:00

Há uns dias, um dos canais de televisão por assinatura apresentou ótimo documentário sobre os primeiros dias da construção de Brasília e sobretudo testemunhos de mulheres ali chegadas, acreditando em dias melhores: desde a professorinha mineira cansada do pequeno salário e monotonia dos dias, à imigrante nordestina, sozinha ou acompanhando o marido esperançoso, cozinhando para os candangos, os filhos a tiracolo. Uma atmosfera de faroeste num amontoado de sonhos, mais ou menos bem concretizados, uma história que todos conhecemos. Brasília: o trânsito flui, não há pedintes nas superquadras, nem cães magros sem dono, nem pessoas mal vestidas, com alpercatas de plástico. Na cidade sem esquinas, sem becos nem vielas, neste momento do ano as árvores esbanjam flores amarelas e as mangueiras produzem frutos que ninguém colhe. Uma amiga, um advogado, um homem de negócios, um professor de universidade, todos pernambucanos, digamos bem-sucedidos, falam com entusiasmo da vida que escolheram buscando a felicidade neste canto do Brasil que volta as costas às misérias do país. Entendo que se ame a cidade e seu jeito de ser. Lembro meu primeiro contato com Brasília-DF, a acolhida dos estudantes quando do curso Os sentidos da Paixão, organizado por Adauto Novaes, num campus ainda em construção. Lembro o sorriso de Juscelino na Cidade Universitária em Paris, para onde viera acompanhando duas mineirinhas debutantes em Versailles, falando entusiasmado num francês macarrônico, mas aplaudidíssimo por nós todos. Lembro até sua presença na Catedral da Rua Silva Jardim, no Rio de Janeiro, quando se comemorava o centenário da chegada dos primeiros missionários presbiterianos ao Brasil, cantando conosco, ( meninos eu vi,) Por nossa pátria oramos a ti supremo Deus. Que me perdoem os brasilienses, a inegável organização da cidade me deixa indiferente. Talvez porque, ao passar pela Praça dos Três Poderes, a gente não consegue esquecer que é ali, num daqueles prédios saídos do sonho de Niemeyer e da arte desse poeta grande pernambucano Joaquim Cardozo, que o horror diário acontece. Que apaga, de um golpe tudo o que Brasília poderia sugerir de esperança e beleza. E penso em Maria, que sai da casa em cidade-satélite, às 3 horas e meia, pega o ônibus lotado, desce na Rodoviária, toma outro ônibus para servir o café ao pessoal da Quadra às 7 horas. Volta para casa em tempo de ver os meninos já adormecendo, cuidados pela cunhada. Mas na Catedral de Brasília os belíssimos vitrais da pernambucana Marianne Peretti filtram a luz do sol, colorindo o chão e os corações. O anjo pendurado acima de nossas cabeças, o Cristo modesto, os pequenos quadros do Caminho da Cruz, de Di Cavalcanti, presenças do Eterno, apagam, por um momento, a maldade humana. E lembramos o presidente risonho, que cantava o Peixe Vivo, repetindo Como poderei viver sem a tua companhia. Que acolhia com o mesmo sorriso, diplomatas e artistas, que tocava violão. E se juntando aos presbiterianos da Rua Silva Jardim, entoando o antigo hino tão atual: “Por nossa pátria oramos, a Ti supremo Deus.”

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