Méritos sociais

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 05/01/2018 03:00

Além dos méritos civilizacionais e dos propriamente religiosos de que falei noutros textos, dois ou três meses atrás, há ainda que reconhecer no protestantismo importantes méritos político-sociais.

Primeiro, o da responsabilidade de cada qual pela cidade comum. Porque sua rebelião consistiu numa revolta contra a autoridade e numa exaltação do indivíduo (chamado a ler solitariamente a Biblia e interpretá-la por conta própria, e doutrinado a ter contacto direto com Deus, sem as intermediações da Igreja institucional), essa nova perspectiva se desdobraria também em comportamentos na vida pública, na esfera social. Integralmente senhor das próprias ações, e definindo sozinho a própria fé e a própria moral, sem depender de nenhum poder superior, cada pessoa seria também responsável pela cidade comum, agindo por conta própria, sem esperar determinações vindas do alto ou do centro, da autoridade institucional, seja ela o Estado ou a Igreja. Essa dependência foi o modelo de comportamento que prevaleceu nas Américas ibéricas, em que as populações ficavam mais passivas, mais acomodadas, à espera das decisões superiores, de cima para baixo. O comportamento social na América inglesa, por conta do protestantismo, foi outro: a comunidade se sentia responsável por ela mesma e tomava logo suas decisões, de baixo para cima.

Como se vê nos filmes de faroeste. Assim que um grupo se instalava nalgum lugarejo, logo  cuidava de eleger o xerife e o juiz – o agente policial e o agente judiciário, ou seja as duas autoridades que representam e garantem essencialmente a ordem, que é o elemento básico de que qualquer comunidade necessita.  Não esperava por alguma nomeação do governador geral ou do capitão donatário. E o juiz, eleito, logo se cercava de outros cidadãos, para constituírem o júri a fim de deliberarem sobre os infratores da lei e do bem geral. Muito da prática democrática norteamericana vem daí, desse sentimento individual de responsabilidade, de cada um, pela coisa coletiva.

Outro mérito político-social deve ser assinalado – mas este é provável que decorra mais da circunstancia de o protestantismo ser minoria entre nós (até quando?). É próprio das minorias serem mais aguerridas, mais coerentes, mais nítidas. Estão os protestantes, hoje, no Brasil, a defender os valores cristãos, valores sagrados, de uma forma muito mais corajosa, mais explícita e mais destemida do que os defende a maioria católica. Os católicos temos sido mais omissos, mais complacentes, mais covardes. Sobretudo a defesa da vida e da família – tão enxovalhadas, ambas, tão aviltadas, a família verdadeira (pai, mãe e filhos) e a vida integral (desde a concepção, quando não é mera parte do corpo da mãe), atacadas por todos os lados e a pretexto de todas as bandeiras. Uma imensa conspiração se instalou contra o plano de Deus – não só no Brasil mas conspiração de dimensões planetárias, o mundo se levanta contra Deus, o mundo liderado obviamente por seu Príncipe – e contra essa conspiração são as vozes dos irmãos protestantes as que mais se erguem e protestam. Benditos sejam eles. 

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