Pernambuco perde um político diferente

Giovanni Mastroianni
* Advogado, administrador e jornalista

Publicação: 03/01/2018 03:00

No momento  em que grande parte dos políticos carrega em seus ombros o estigma da desonra, muitos dos quais representam Pernambuco, o Leão do Norte perde antigo representante do povo, que, em sua trajetória pública, dividiu suas atividades como empresário vitorioso, e, também, como integrante da política, dela se afastando, como é público e notório, sem registro de mácula. Armando Monteiro Filho deixa, neste segundo dia do ano, o convívio dos pernambucanos, aos noventa e dois anos de idade.

Genro do ex-governador Agamenon Magalhães, ainda estudante de engenharia, quando ingressou na universidade, na década de 1940, Armando Monteiro Filho já portava pendores antigetulistas, lutando contra o Estado Novo. Desde então, tinha tudo para se tornar um estadista afamado, como realmente chegou a ser, em sua trajetória de parlamentar, apesar de alguns percalços, ora como deputado estadual, ora como deputado federal.

Secretário estadual de Viação e Obas Públicas, ocupou a pasta de 1951 a 1954, quando de sua assunção na Assembleia Legislativa de Pernambuco, cadeira que, por direito, lhe pertencia. Nas eleições desse mesmo ano, candidatou-se a uma vaga como membro do Congresso Nacional, sendo eleito pelo Partido Social Democrático o deputado federal mais votado, assumindo seu mandato em 1955, reelegendo-se na eleição seguinte. Quando Jânio Quadros renunciou à Presidência da República, votou a favor da emenda constitucional que instituía o parlamentarismo no país, única fórmula conciliatória, então encontrada, na cúpula, para que o vice João Goulart assumisse o governo.

Em face do novo regime adotado no país, Tancredo Neves foi nomeado primeiro-ministro e Armando Monteiro Filho indicado para o Ministério da Agricultura, onde permaneceu até 1962, quando voltou a ocupar assento na Câmara dos Deputados. Nesse mesmo ano, ainda sob a legenda do PSD, disputou o governo de Pernambuco, enfrentando  o “mito” Miguel Arraes de Alencar. Ao afastar-se da política, voltou a ocupar sua posição de conceituado empresário pernambucano, assumindo compromissos nos setores sucroalcooleiro e bancário.

Quem bem descreve a personalidade de Armando Monteiro Filho é o escritor Mário Hélio Gomes: “Homem que deixará um legado e moral para a história. Um grande exemplo. Quem tem a alegria de conhecê-lo e uma visão da elite e da aristocracia positiva como a dos aristocratas pernambucanos pode mesmo dizer com toda a convicção que ele é o último dos aristocratas pernambucano. Ele ensina, não somente com palavras, mas com ações, que a política é a arte de servir ao povo, não de servir-se do povo.” E acrescenta, no que tange ao  político Armando Monteiro Filho: “Assume e aceita ser um servidor, no trabalho pelo bem comum, não levando nenhuma vantagem nisso.” Como seu grande feito “sendo usineiro, elaborou o mais avançado projeto de reforma agrária; tendo sido banqueiro, preferia que seu banco fosse antes de tudo um motor de desenvolvimento.” São, também, palavras de Mário Hélio, descrevendo as qualidades incomuns do homem público: “Honrado, correto, ético, honesto, leal e amigo.”

Nos últimos tempos, o pranteado vinha apresentando problemas de saúde. Além de hipotensão, baixa oxigenação e dificuldades respiratórias. Não resistiu a tantos abalos físicos.

Seu corpo foi exposto em velório, ontem, na Capela Nossa Senhora das Graças, no Instituto Brennand, na Várzea, e será cremado, hoje, às 11h, no cemitério Morada da Paz, no município do Paulista. Por todos os atributos descritos, nesta simples homenagem prestada a um empresário, com quem não convivi, mas conheci, no dia a dia, em seu local de trabalho. É, também, meu tributo  a um político honrado e, por isso, cognominei de “diferente”.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.