Solidariedade transoceânica

Cláudio Lacerda
Cirurgião, professor da UPE e da Uninassau

Publicação: 03/01/2018 03:00

Fábio Martins, vinte e oito anos, nasceu em Goiânia (GO), onde residia até janeiro deste ano, quando resolveu dar baixa da incipiente carreira de policial militar e emigrar para Londres com esposa e filha, em busca de prosperidade econômica. Sabia ser portador de hepatite crônica autoimune, até então mantida sob controle com medicamentos.

Na capital inglesa, ele estava indo bem, como motoqueiro entregador de encomendas. A partir de agosto, porém, começou a apresentar sinais de agravamento da doença, com rápida evolução para cirrose e hemorragia digestiva, necessitando de internação no Royal Free, hospital de referência em doenças do fígado em toda a Europa. O sangramento foi controlado, mas os médicos deixaram clara a indicação de transplante de urgência, como única maneira de evitar o iminente risco de recidiva hemorrágica e morte.

Ocorre que Fábio não tinha cidadania britânica. E a lei impedia que ele fosse transplantado naquele país. A embaixada brasileira interveio, sem êxito. Os médicos ingleses se angustiaram pela questão ética e sugeriram, como única chance, seu retorno ao Brasil, numa UTI aérea. Mesmo sem nos conhecer, entraram em contato conosco, para confirmar se o receberíamos e o transplantaríamos.

Como a situação clínica se agravava a cada dia, a família resolveu contar o caso nas redes sociais e pedir apoio para o custeio da viagem de Londres ao Recife, orçada em 86 mil euros (cerca de R$ 350 mil). Viralizou. Líderes religiosos de várias partes do mundo, artistas famosos e ativistas antixenofobia expressaram solidariedade e indignação. Jogadores de futebol brasileiros que atuam na Inglaterra, alguns da seleção, entraram com força nessa peleja e disponibilizaram grande parte do valor necessário. Empresários de Goiás também ajudaram. No jogo Inglaterra e Brasil, no estádio de Wembley, em novembro último, ecoou um grito forte das arquibancadas: “Help Fábio!... Help Fábio!”.

Os recursos foram levantados em uma semana e, no dia 18 de novembro, um jatinho aterrissou no Aeroporto dos Guararapes. Uma ambulância trouxe Fábio para a nossa Unidade de Transplante de Fígado no Hospital Universitário Oswaldo Cruz. Avaliado, confirmamos a indicação de urgente transplante de fígado. Como seus exames estavam muito alterados, ele foi inscrito e ficou entre os primeiros da lista de espera. Começou a luta contra o tempo. Diariamente, os colegas ingleses entravam em contato, pedindo notícias.

Afinal, na tarde de 5 de dezembro surgiu, no Hospital da Restauração, um doador compatível: quarenta anos, vítima de acidente de moto. Os parentes consentiram a doação. Às 20h o telefone tocou no apartamento onde a pequena família de Fábio estava hospedada. Quem atendeu foi a menininha, que gritou feliz: mamãe ... Chegou o fígado de papai! As duas se abraçaram em pranto de alegria e esperança. Na madrugada seguinte, Fábio foi transplantado, pelo SUS, no Hospital Jayme da Fonte. Sete dias depois, teve alta hospitalar, em excelentes condições.

Cinco dias depois, no exato momento em que finalizo essa narrativa, recebo, via celular, uma foto do próprio Fábio Martins, com sua esposa e sua linda filhinha, na Praia de Boa Viagem. Quando contemplo o sorriso dos três, penso comigo mesmo: “e ainda me pagam pra isso”.

Venceu a solidariedade sem fronteiras ideológicas ou geopolíticas. Venceu a compaixão ativa de todos que se envolveram nessa edificante história. Inclusive a família do doador.

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