Os seres que nos aumentam a alma

Luzilá Gonçalves *
luzilagon@yahoo.com.br

Publicação: 02/01/2018 03:00

Eduardo Galeano falou, em um de seus livros, sobre pessoas que nos aumentam a alma. Semelhantes a um belo poema, um trecho em prosa que alegra, apazigua, acalma, suscita o desejo de nos tornarmos melhores, mais humanos, mais compassivos, mais compreensivos, mais ricos. E ao seu contato, um espaço de calma, se cria, algo como um halo de felicidade depois do qual não se deseja mais nada. Nem mesmo palavras para se dizer esta felicidade, tão inteiros nos sentimos. Luzinete era assim. Há dois anos, em uma das homenagens que a cidade de Garanhuns lhe prestou, verificamos: metade do auditório era formada por antigos alunos seus, no Diocesano, no Santa Sofia, e a outra metade por pessoas que gostariam de ter feito parte desse grupo. Por mais de setenta anos, desde que não era mais que uma linda adolescente loura de intensos olhos azuis, até o estatuto de uma belíssima, tranquila e feliz senhora “de idade” como se diz, Luzinete Laporte foi uma presença na cidade que amava, repartindo com ricos e pobres, com seus alunos, seu saber, sua cultura, sua amizade, com todos os que tiveram o privilégio de aprender dela o amor pela poesia, pela literatura, pela cidade. Que aprenderam por suas aulas, por seu exemplo de vida, o sentido da honestidade, da justiça, da integridade, do respeito ao próximo, da amizade. E por seus escritos – alguns romances, ensaios, muitos artigos de jornal,crônicas, livros infantis – a fruição das coisas belas que nos cercam, flores, plantas, animais em sua inocência, que nos ajudam a viver. E na paisagem de Garanhuns, o cheiro dos eucaliptos, a neblina que vez por outra envolve as sete colinas da cidade. No ano passado, a esta mesma época, leitores, amigos, ex-alunos, políticos, festejamos os noventa anos de Luzinete. Que ainda comemorou, nesta semana, um dia antes que nos deixasse, seus 91, participando com alegria e animação do encontro com os amigos. De fato, só nos resta repetir Galeano: Luzinete foi desses seres humanos que nos aumentam a alma. E como Garanhuns, por muito tempo, vai nos parecer vazia sem Luzinete, essa mulher que tornou mais belo o mundo.

* Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

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