Estética: Moral? Imoral? Ou engorda?

Raimundo Carrero *
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Publicação: 01/01/2018 03:00

Na última aula do ano da Oficina de  Criação Literária tivemos um belo debate sobre o final do romance Ana Karenina, de Tólstoi, envolvendo estética e moralidade, considerando ainda a ficção como artifício para revelar a verdadeira intenção do autor: mostrar a força e o caráter do povo russo. Aproveitei para destacar que os escritores que trataram do adultério, sobretudo no século 19, foram extremamente moralistas em relação à mulher. Ana Karenina e Madame Bovary se suicidaram, a primeira jogando-se embaixo de um trem, e a segunda bebendo veneno. Karenina tem um momento de alívio, mas Ema sofre durante o tempo que o arsênio atormentou a carne o sangue, com dores horríveis. Nenhum alívio para Ema. O sensível Flaubert foi mais solidário do que o moralista Tósltoi. Aí entram as questões de moralidade e de estética ou de beleza na obra de arte.

O nosso Machado de Assis foi ambíguo. Mandou Capitu para a Europa, que é um gesto de desprezo pela ausência. Isto é: desconheço e, portanto, desprezo esta mulher. Mas Bentinho caiu nos braços das prostitutas. Deu-se ao amor leviano. Mesmo assim, estas são questões do campo da moral e não da estética. Será mesmo? Será assim? Para Tólstoi, por exemplo, o adultério é um tema menor, que não merece ser tratado pelo artista. Para ele, portanto, Ana Karenina é um romance impuro, não merecendo assim o nome de obra de arte. Aliás, para ele, o objeto da estética não é a Beleza, Mas o Bem. Isso altera, completamente, os estudos de Estética, desde a Antiguidade.

“O conflito entre a arte e a moral, em Tólstoi, não tinha solução. Levou-o vinte anos depois a amaldiçoar. Amaldiçoar, no tratado O que é arte?, toda e qualquer arte literária, inclusive a sua. Mas o conflito fora teórico. Na prática. A harmonia entre as intenções conflitantes estava em Ana Karenina, o “mais sério romance e o “mais romance” dos romances de Tólstoi e, talvez, da literatura russa.” É o que escreve Otto Maria Carpeaux no posfácio à edição de Ana Karenina da editora Nova Fronteira. Aliás, a Nova Fronteira tem uma edição recente do ensaio O que é arte?, que revolve com enorme competência as questões de Estética, com a convicção de que a Estética objetiva o bem e não a beleza.

O debate na Oficina foi acalorado e concluímos ainda dispostos a procurar definições, embora em princípio consideramos que a obra de arte almeja a Beleza, onde ela estiver, com os melhores respeitos por Tólstoi.

* Escritor e jornalista

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