Juracy Andrade

José Luiz Delgado *
jslzdelgado@gmail.com

Publicação: 29/12/2017 03:00

Minha convivência com ele não era pessoal, com conversas presenciais – somente duas ou três vezes nos encontramos pessoalmente, e, ainda assim, em palestras ligeiras. Mas era intensa. Havia entre nós muitas divergências – políticas e religiosas, embora partíssemos de uma base comum – a mesma religião, a mesma fé, a mesma confiança absoluta em Jesus. Dentro da Igreja, tínhamos profunda admiração por um mestre comum, Maritain, e também o mesmo empenho (por vias diferentes, embora) por uma Igreja sempre renovada e cada vez mais fiel ao ideal de Jesus. Talvez não soubesse ele que ainda por uma razão especial eu lhe era afeiçoado: ele era sobrinho de dom João Costa, um dos mais admiráveis sacerdotes desta Arquidiocese, daqui saindo para ser bispo de Mossoró (por isto Juracy passará em Mossoró boa parte de sua infância), e dom Costa era amicíssimo de meu pai, que tinha por ele a maior admiração.

Trocamos muitas correspondências – ou melhor, nesses meios modernos, muitos e-mails. Eu o lia sempre, e sempre me senti acicatado por muitas de suas posições, que me forçavam a maiores estudos e reflexões. Ousei contestar vários de seus artigos, defendendo outra visão das coisas, sobretudo da Igreja.

Assinamos juntos, com mais outros quatro escritores, um livro que a generosidade de Ivanildo Sampaio teve a ideia de reunir, Escritas atemporais, e foi para mim muita honra não somente ter sido lembrado para incluir textos meus nesse livro, mas estar ao lado de articulistas que sempre admirei, e Juracy era um deles. E até contribuí – atendendo a pedido seu, mas, claro, sustentando posições diferentes – para um pequeno livro de sua autoria, Padres comunistas!.

Não era só quanto a personagens e episódios da igreja local que discordávamos. A divergência ia mais longe e mais fundo, dizia respeito à visão mesma da Igreja, à Igreja universal. Penso que a ideia essencial de Juracy era a de que, ao longo da história, a Igreja institucional e hierárquica viera deformando o projeto de seu fundador. A realidade concreta do Vaticano era, especificamente, para ele, uma traição: a própria hierarquia, a, enfim, autoridade mesma. Claro que de tudo isso eu discordava profundamente, embora reconhecesse, na Igreja, uma face humana – e, portanto, falível, marcada por pecados e erros. Por mais que possam ser tidos como defeituosos e equivocados certos caminhos e certas opções que ela veio fazendo, no curso dos tempos, a Igreja, na sua substância, não traiu o Senhor Jesus. Nem poderia. Afinal, Ele não garantiu a ela Sua assistência pelos séculos sem fim?

Muito impressionado com certos rumos tomados pela Igreja na História, rumos que denunciava, Juracy não queria compreender isso, e continuava formulando acusações contra ela. Mais do que essa incompreensão, Deus há de acolher o entusiasmo de Juracy pelo projeto genuíno de Cristo, e o amor, de que nunca desertou, pela redenção operada no Calvário.

* Professor de Direito da UFPE

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