A mídia, as delações e prisões

Nagib Jorge Neto *
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Publicação: 29/12/2017 03:00

A postura passiva, omissa - diante de prisões e condenações – foi a tônica na época da “redentora” quando artistas, intelectuais, líderes políticos, ativitas, religiosos, só reagiram ao golpe no período em que passou a prender, torturar e matar pessoas da classe média ou próxima. Na fase mais recente da prisão e condenação de José Dirceu – que resistiu às pressões do STF e de Sérgio Moro - vingou o silêncio ou omissão diante da maquinação de Joaquim Barbosa – jurista de ficção indicado contra a opinião de Dirceu - Ayres Brito – jurista e poeta – Rosa Weber, cuja obra maior ou menor é desconhecida.

Esse trio criou a farsa jurídica, a mídia jogou e joga pesado no discurso de combate à corrupção, deslumbrou os juristas, tornando a barbaridade um cavalo de Troia, ou trojan, aplicável a uma pessoa com muito poder, portanto, só pode ser condenada com base em indícios. Daí o STF manda para o grupo de Sérgio Moro, da República de Curitiba, as delações contra partidos e políticos acusados ou julgados pela cruzada da imprensa. A maquinação gera audiência (a mídia reduziu a receita de crimes e tragédias) e assim reforça a ação dos procuradores de Curitiba que usam delações, acusações – triplex do Guarujá, de Atibaia – lavagem de dinheiro e organização criminosa, ou a repetitiva “obstrução de justiça”, visando os governos de Lula e Dilma. Na trovoada, em nome da lei, do MP, surgem manchetes que evocam o líder Muamar Kadafi, da Líbia, ou ligações do PT e da esquerda com líderes árabes, africanos ou Fidel Castro, sobre supostas doações para campanhas eleitorais.

A nossa Constituição não ampara tais abusos, mas vigora a tese do ministro Luis Barroso, ou seja, cabe ao Supremo legislar nos casos omissos. É um tribunal de exceção tolerado pela acomodação dos que têm voz e compromisso com as liberdades e garantias individuais. Evidente que alguns jornais e blogues dizem alguma coisa, contudo parcelas da classe média, de lideres políticos, ativistas, não têm tempo para ler, inclusive os jornalistas que se limitam a ver seus textos, de colegas e registrar: li teu trabalho ou não li e gostei.

A maioria – do povo, da classe média – vê os jornais e revistas nas bancas, nos postes, nas redes sociais, e segue como na letra de Caetano: “quem lê tanta notícia”. Assim ignora o risco e vai ladeira abaixo até quando o poder da mídia, da rede, atinge sua privacidade, difama ou silencia diante da prisão ou morte de alguém da família. Isto acontecia nos anos 1970, quando Alberto Dines dizia aos repórteres no JB: leiam os jornais, que dizem alguma coisa. Na fase atual, apesar da crise dos impressos, da fuga para a área digital, ainda é necessário navegar no universo das notícias para ter uma visão mais objetiva de atos e fatos, qualquer que seja o enfoque ou versão de repórteres, colunistas ou especialistas com espaço na mídia.

* Jornalista

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