O feminino de Hemingway

Múcio Aguiar *
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Publicação: 28/12/2017 03:00

Em outubro passado o jornal El Pais, seguindo os passos do The Washington Post publicou matéria sobre a nova biografia do escritor norte-americano Ernest Miller Hemingway (1899), cuja obra sou admirador, não com a intenção de ser um crítico de seus textos, mas sim um atencioso leitor. No último dia 25 de dezembro, Alexandre de Paula, em especial para o DIARIO apresentou os novos estudos sobre aquele autor, que agora recebe sua oitava biografia, e pela primeira vez pelas mãos de uma mulher, Mary V. Dearborn, PhD em literatura pela Universidade de Columbia, onde leciona o amigo Ralph Della Cava, um dos maiores estudiosos de Padre Cícero.

Ao propor a leitura, o secular DIARIO resgata sua tradição em crônicas literárias, relembrando seu caderno literário, por onde grandes nomes do nosso jornalismo circularam.

Voltando ao tema, a importância da nova biografia é a inusitada abordagem, que agora explora o universo feminino do criador de “O velho e o mar” (1952), livro que lhe rendeu o Prémio Pulitzer de Ficção (1953) e o Nobel de Literatura (1954). Dearborn nos apresenta as dúvidas quanto a sua sexualidade que possivelmente influenciaram em suas depressões que o levaram ao suicídio em 1961. Esta nova biografia de 750 páginas examina todos os aspectos de sua vida e trabalho, embora seja seu estudo sobre questões de gênero que a distinga de seus predecessores. O livro revela o fascínio do escritor com a androginia e suas fantasias sexuais com cortes de cabelo: ele costumava pedir a seus companheiros que o levassem o mais curto possível, enquanto ele deixava crescer e passava a tingi-lo de louro e mogno. Ao retornar de sua segunda viagem à África, o autor insistiu em ornamentar os ouvidos. “Usar brincos teria um efeito mortal em sua reputação”, sua quarta esposa, a jornalista Mary Welsh, teve que o dissuadir da ideia.

Hemingway era homossexual reprimido? “A resposta curta é não”, responde Dearborn que o classifica como de gênero ambíguo. Ele superou, se quiser, o fato de se definir como gay. Ele voltou as expectativas sobre a identidade e o comportamento de homens e mulheres, acrescenta a estudiosa. É interessante lembrar, ainda, que em sua novela póstuma e inacabada, The Garden of Eden, um escritor chamado David Bourne, pediu a sua esposa para cortar o cabelo e depois sodomiza-lo com um vibrador, um exercício que o próprio Hemingway teria praticado. Para Dearborn, essas fantasias "não falaram sobre homossexualidade ou transvestismo, mas sobre a adoção do papel feminino durante o ato sexual".

Ao biografar com um novo olhar, Dearborn contribui para com os amantes de Hemingway, que poderão ler seus livros numa inusitada perspectiva e compreender a influência da personalidade em suas obras, e ao desvendar sua possível opção sexual conhecermos mais de um grande romancista, Por quem os sinos dobram (1940) de respeito.

* Presidente da Associação da Imprensa de Pernambuco, conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa e doutorando em PhD pela Universidade de Coimbra

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