EDITORIAL » Um perigo maior do que se imagina

Publicação: 28/12/2017 03:00

Quando se fala em fake news, expressão que se consagrou mundialmente como definidora de “notícias falsas”, a tendência de todos é pensar que se trata apenas de uma mentira capaz de ser desmascarada com alguma pesquisa e revelação do fato verdadeiro. Não é só isso, porém. Há nuances assustadoras em torno do tema.

Vejamos: em relatório recente uma empresa líder mundial em tecnologia da informação afirma que em 2022 o Ocidente consumirá mais fake news que notícias verdadeiras. Trata-se de um cenário pavoroso: o público ocidental estará mais suscetível a ler, ver ou escutar mais mentiras que verdades. Quem nos garante, porém, que este relatório não se trata, ele próprio, de uma informação supostamente científica cuja constatação na verdade é falsa ou então destinada a favorecer os interesses da empresa responsável pelo relatório?...     O pertinente questionamento foi levantado pelo jornalista Josep Massot, do La Vanguardia (Barcelona), observando que o principal acionista da empresa responsável pelo relatório é uma firma de capital de risco, que eventualmente poderia te r interesses na divulgação de um cenário de incertezas para o futuro.

Recorremos ao exemplo não para duvidar da conclusão do estudo, mas para mostrar como o problema das fake news carrega mais perigos do que imagina a nossa vã avaliação. São os pilares da informação que estão ameaçados. No rastro da desinformação vêm - às vezes de maneira dissimulada, às vezes ostensiva - inimigos conhecidos da civilização: os  disseminadores do ódio, do autoritarismo, da discriminação, e os que esperam obter lucros (políticos ou financeiros) com a realidade inventada.

Não se trata de algo novo na paisagem mundial; na verdade, é algo que esteve sempre nos rondando. A singularidade de agora é que a ameaça chega de forma vertiginosa, por meio da transmissão nas redes sociais. Não há tempo nem meios para averiguar a avalanche de notícias que são espalhadas nas redes. A cada informação falsa que é desmentida ou deixa de ser publicada, há dezenas de outras que furam o bloqueio ao encontrar guarida entre ingênuos ou propagadores de má fé.     

O cenário projetado faz crescer a importância do papel da imprensa, como um filtro capaz de separar a mentira da verdade, e publicar a verdade. Esta sempre foi a tarefa básica de quem faz jornalismo, porém se isso era valioso no passado mais ainda o é nos presentes dias. Rigor na apuração, exatidão nas informações divulgadas, busca incessante da objetividade, checagem contínua sobre o dito e o feito, são pilares sobre os quais deve assentar-se o trabalho diário e ininterrupto dos veículos de imprensa, como o Diario de Pernambuco. O antívirus capaz de conter todas as fake news ainda não foi encontrado; a imprensa, no entanto, pode e deve ser um escudo permanentemente erguido para tentar impedir que elas passem. 

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