Luz cidadã

Jaílson Correia
Médico e secretário de Saúde do Recife

Publicação: 27/12/2017 03:00

Havíamos saído da prefeitura às 7h15 e já estávamos no bairro de Afogados. Todos sentados e acomodados, aguardando a chegada da orquestra. Os desafios do dia, aqueles não planejados, que chegam desde muito cedo pelo celular, iam fazendo fila na organização dos pensamentos.

Uma lista do que fazer ia se modificando de acordo com as urgências e prioridades. Por uns instantes abstraí da tela brilhante da palma da mão e, absorto diante do ambiente, observei as paredes escrupulosamente revestidas, até o teto, de espuma acústica cinza-grafite.

De repente, sons de flautas doces e transversas, violinos, violoncelo, trombone, bateria e um ultramelódico sax baixo soprano inundaram o ambiente do estúdio. Os instrumentistas foram entrando aos poucos e se posicionando numa espécie de palco de fundo verde reluzente. Alguns demonstravam talento musical notório, quase desconcertante para tão pouca idade. Noutros, o que se ouvia eram lições de superação e persistência, não menos admiráveis.

Em todos, o brilho vívido do olhar dos que têm esperança. Me dei conta que a cor do fundo de palco era própria para Chroma Key, uma técnica utilizada como efeito especial em vídeos, para substituir digitalmente o fundo por algum outro cenário. Vendo e ouvindo aquelas crianças e adolescentes e seus instrumentos, em contraste com o fundo de palco que tudo permitia imaginar, não pude deixar de pensar na ideia de projetá-los diante de suas duras realidades, percorrendo as vielas dos altos e córregos da Zona Norte do Recife. E, inspirado pela fala de Dona Zitah, benfeitora e responsável pelo projeto de música e cidadania, concebi também todos eles em dois cenários alternativos de futuro. Um, sombrio, obscuro, de violência e envolvimento com o tráfico. O outro, digno, distinto, de realizações e de luz. De Anjos Luz, mais precisamente, pois assim se chama a orquestra.

Pensei que a chave do portal que separa esses futuros, como universos paralelos, poderia ser um quimono, um livro ou, neste caso, uma flauta. Pensei no poder transformador de iniciativas que mudam trajetórias, sejam elas políticas públicas, sejam projetos da generosidade, solidariedade e altruísmo de nosso povo. Pensei no Mãe Coruja Recife, no Compaz, na Escola do Futuro. Pensei nos muitos recifenses anônimos que dedicam uma parte de suas vidas ao bem comum. E agradeci mentalmente ao maestro Geraldo Julio, que havia provocado todo o seu secretariado a fazer uma confraternização diferente, compartilhando um café da manhã com aquelas crianças e adolescentes, seus benfeitores e tutores.

Ali, conheci dona Gleice, avó de Marlon, Mateus, Miguel e Milena, quatro dentre os 50 participantes do projeto. Conheci um pouco da sua luta e da sua dedicação. Refleti sobre sua persistência e resiliência. Renovados de esperança e com um senso ainda maior de responsabilidade, seguimos para a Prefeitura do Recife, de volta às nossas rotinas de trabalho na gestão pública municipal. Uma manhã para não esquecer. Obrigado, Anjos Luz.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.