Ah, poder voltar naquele tempo

Marly Mota *
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Publicação: 26/12/2017 03:00

É dezembro! As folhinhas com calendário e estampas de santos impressos, presente de Boas Festas dos comerciantes, marcavam em vermelho o dia 25. As estratégias atuais de marketing das empresas eliminaram o sentido religioso de nascimento do Menino Jesus, fazendo do Natal uma caminhada de consumismo. O verdadeiro Natal está cercado de lembranças uma atrás da outra. O extenso arvoredo dominado pelos cantos das cigarras e ao amanhecer dos galos, sempre correspondidos por outro de quintais mais distantes, uma saudade de coisa perdida.

A infatigável Sá Nana, mãos calejadas, óculos comprado na feira, ar enternecido, contava-nos estórias do “reino da carochinha”. Começava o dia na grande cozinha do Engenho Independência dos meus avós. No fluir da memória, íamos repetindo as caminhadas e lembranças dos anos anteriores na casa grande de todos nós. Na sala, com toda aquela gente da infância, a mesa forrada com toalha adamascada, onde todos sentavam em volta da ceia, preparada pelas cozinheiras, Maria Mandu e Docina. A nossa querida tia Alice, irmã de minha mãe, passando uns dias com os filhos Renê, Marcos e Léa; tão fervorosa, quanto supersticiosa, fazia bolos e, a cada receita, acrescentava generosamente duas colheres de açúcar para as almas do purgatório. Nessa mesma sala, em época passada, tinha havido festas onde os pares jovens dançavam e parentas, de frustrados romances, guardavam alguma esperança. De amores e de sexo tão pouco se falava do assunto. Lembravam do tio Arnaldo e de Ana, sua mulher e sobrinha. O pai deixara juntá-los naquele casamento absurdo: bens e dinheiro, que trouxera à Ana, infelicidade. Casamento incestuoso não foi o primeiro da família. Os mais velhos comentavam os amores de tia Sinhá Té (Thereza), que conheci tão pouco. Para mim era uma princesa, fidalga, bonita e solteira. Viajava sempre à Europa. Instalava-se em Paris. Comprava litografias de caçadas do Duque de Orleans de Carle Vernet nos buquinistas às margens do Sena.

Do sobrado da minha meninice vizinho à igreja, os sinos anunciavam a missa do galo com repiques festivos. Não há nada mais evocativo do que o dobrar dos sinos. Da varanda via-se a festa da praça, música no coreto, barracas de prendas, carrosséis e os famosos doces de alfenins das irmãs Raimunda e Triphonia. Dona prazeres fazia os sequilhos – docinhos referidos no século XVIII por Correia Garção, poeta português. Tempos depois, descobri o escritor Thornton Wilde – 1897-1975 que entrou na minha estante de livros: A Longa Ceia de Natal. Um decorrer de gerações na busca de ascendentes e descendentes anteriores. À medida que lia era tomada por aquela estranha sensação de quando ao abrir portas de quartos e salas, encontrá-los vazios e pesados de invisíveis presenças. Wilder diz que o Natal é o lugar onde guardamos as memórias de nossa inocência.

Com sentimentos vividos e os símbolos de uma essencialidade renovada, desejo aos meus queridos familiares, amigos e leitores Boas Festas .

* Membro da Academia Pernambucana de Letras

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