Homo Deus, de Harari (I)

Maurício Rands *,
*Advogado, PhD pela Universidade Oxford, Secretário de Acesso a Direitos da OEA
*As opiniões expressas pelo autor são pessoais e não representam posições da entidade a que está vinculado.

Publicação: 25/12/2017 09:00

O segundo livro de Harari, depois de Homo Sapiens, é ainda mais instigante. Homo Deus, uma breve história do amanhã é também mais controverso. Não vou aqui fazer uma resenha da obra. Apenas comento algumas questões que Harari nos provoca a refletir. A partir das suas hipóteses sobre as consequências da evolução da biotecnologia, com sua capacidade de influir em nosso DNA, e da inteligência artificial, com sua capacidade de fazer os algoritmos atuarem cada vez mais como se tivessem vontade própria. Para ele, cada vez mais se aproximam a inteligência do ser orgânico consciente e a do ser inorgânico. Sua hipótese central é a de que ainteligência artificial e a biotecnologia podem colocar em risco o homo sapiens.

Pelo menos como o conhecemos até hoje. Foram extintos o homem de neanderthal e outras espécies depois que o homo sapiens se impôs com a sua ‘revolução cognitiva’ ocorrida há 70 mil anos. O mesmo pode ocorrer com o sapiens.

Ao se debruçar sobre a avalanche e a velocidade de dados que são disponibilizados na internet, Harari levanta hipóteses sobre os impactos daí decorrentes. Na economia, na política e no funcionamento da democracia, bem como na própria ‘natureza humana’. Lembra que os EUA dispõem de um formidável volume de informações sobre as pessoas e instituições em todo o planeta. Mas que, não obstante, nem sempre têm acertado em sua política externa, por exemplo. Daí surge a questão. Como as instituições e os indivíduos processam toda essa avalanche de dados? Fala-se de um novo modelo de interpretação: o ‘Datismo’. Um sistema deprocessamento de dados que absorve mais dados do que um ser humano, e que os processa de maneira ainda mais eficiente, não lhes seria superior? Para os ‘Datistas’, a humanidade evoluiu de uma visão de mundo teocêntrina, para uma homocêntrica (com o Iluminismo, produziu o liberalismo, o socialismo e o nazismo) e, agora, para uma visão datacêntrica. Fala-se de uma revolução filosófica, mas também de uma revolução prática que se vai se impondo nos meios científicos. Essa ideologia pode (ou não) acabar nos dominando. Felizmente, não existem caminhos únicos a serem seguidos. Assim como as últimas viradas da inovação tecnológica não foram previstas, nada impede que outras viradas inesperadas nos levem a destinos bem distantes das possibilidades levantadas por Harari. Ele lembra que  a humanidade está em vias de superar os grandes flagelos que sempre lhe aprisionaram: a fome, a peste e a guerra. E se pergunta sobre quais serão os grandes projetos que substituirão o da superação daqueles flagelos. A humanidade já se estaria colocando o projeto de superar a velhice e, quem sabe a morte. Mas, nessa jornada visando transformar o homo sapiens em homo Deus, ele indaga se não estaríamos lançando a sementepara que a bioengenharia e a inteligência artificial destruam o próprio homo sapiens. Tal como ele fez com todas as demais espécies do gênero humano e com outros animais.

O livro comenta os riscos para a democracia. A seleção dos diversos desenhos possíveis do ciberespace não é feita com a participação democrática dos cidadãos. O ambiente da internet não foi forjado com a participação das pessoas. Nem muito menos dos centros de poder escolhidos pelos eleitores. Ninguém jamais votou sobre qual formato e estrutura de internet seriam mais convenientes. Senhores absolutos são os laboratórios distantes da Google e similares. Algumas poucas megaempresas desenvolvem, operam e controlam as plataformas digitais. Daí que a própria questão democrática precisa ser visitada à luz desse novo desafio. A velocidade das tecnologias, sobretudo da biotecnologia e da inteligência artificial, faz com que tudo que antes era sólido (e lento) desmanche-se na internet. As instâncias tradicionais de poder estão inundadas com dados. As pessoas idem. O mais das vezes nem umas nem outras sabem o que fazer com tanta informação e tanta volatilidade.

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