O que sustenta Temer

José Luiz Delgado *
jslzdelgado@gmail.com

Publicação: 06/12/2017 03:00

Pode-se dizer que Temer teria um governo tranquilo e seria popular, se abandonasse os projetos “reformistas” nos quais está empenhado para, conforme diz, o bem do país? se resolvesse deixar de pensar no Brasil e nas condições essenciais para o progresso nacional, e pensasse mais em si mesmo, e na própria popularidade? se fosse menos estadista, aquele que pensa nas próximas gerações, e mais político, aquele que cuida só da próxima eleição?

Ou será exatamente o contrário? Paradoxalmente, o que sustenta Temer é sua manifesta, espantosa, inédita impopularidade. O que o sustenta é somente o apoio das grandes corporações financeiras, da elite monetária à qual se vendeu, Fiesp, grandes bancos, grandes seguradoras, etc. Sem qualquer apoio popular, esses poderosos, os grandes de sempre, lhe insinuaram que somente um presidente como ele, sem futuro eleitoral, poderia fazer certas reformas tidas como antipáticas mas que seriam necessárias. (De fato, necessárias para essas elites, cada vez mais vorazes, mais insaciáveis). E ele caiu nesse conto. Se não contasse com esse apoio interessado, já teria sido apeado do poder há muito tempo, tantas e tão terríveis foram as denúncias apresentadas contra ele. Mas esse apoio é capaz até de fazer o novo superintendente da Polícia dizer a enormidade de que uma mala sozinha não prova nada... Mesmo que contivesse 500 mil reais, e fosse carregada por um assessor do presidente, a mando deste. Para o ilustre superintendente, evidentemente, somente haveria prova se se tratasse de um caminhão de transportar valores... Mas uma malinha só?

As tais “reformas” são em favor do Brasil? Algumas podem até ser, mas a da previdência (que ele considerava a mais importante de todas) seguramente não é. Como também não é a reforma da legislação do trabalho rural para dificultar a identificação do trabalho escravo. Todas essas são é em favor do grande capital – banqueiro ou agrícola.

Por incrível que pareça, o que está salvando Temer, o que o sustenta é a impopularidade. O grande capital viu nele – na impossibilidade de sua reeleição – a chance de ouro de empurrar reformas injustas e contra o povo, especificamente a da previdência, começando por negar o óbvio, isto é, o direito de cada um se aposentar com o que efetivamente ganha (e para isso, contribuir na base do que ganha, e não na base de um teto ridículo). Por isto, aposta na sua permanência – para fazer as tais reformas. Os tucanos também estão interessados nisto: para que Temer, o impopular, as faça, e os poupe de fazê-las. Querem que o ônus fique com Temer, não com eles.

Sem a impopularidade, e portanto sem o apoio do grande capital, que se está aproveitando dela e dele, Temer já estaria largado nas páginas obscuras da história. Mas, graças à impopularidade, permanece no governo e pode continuar praticando as corrupções que quiser – que essa aliança do grande capital com governistas, em boa medida igualmente corruptos, ou, no mínimo, servis e interessados, o sustenta.

* Professor de Direito da UFPE

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