Praças e plantas

Luzilá Gonçalves Ferreira *
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Publicação: 05/12/2017 03:00

Vez em quando noticiários televisivos entrevistam pessoas descontentes com o abandono da praça de seu bairro recifense. E de vez em quando têm seus pedidos realizados. Pequenas cidades do interior têm graciosas praças, geralmente preservadas, lugares de encontros cívicos, de lazer, de namoros. Em O pântano e o riacho, Raimundo Arrais lembra: entre os sinais do progresso de uma cidade está a praça ajardinada. Depois de descrever o cuidado da Administração em plantar árvores pelas ruas da cidade, até então desprovidas de vegetação, conforme desenhos e fotografias do Recife antigo, Arrais comenta a autorização de se arborizar a cidade, acordada pela Câmara entre 1842 e 1843. Assinala as tentativas de se instalar um Passeio Público e posteriormente o jardim do Campo das Princesas, e entre outros, o jardim da Praça Conde d’Eu, hoje Praça Maciel Pinheiro, este por iniciativa de moradores. Ao que tudo indica, não se plantaram flores nesses espaços que funcionavam como “ponto de reunião e recreio”, segundo o historiador. O Campo das Princesas, inaugurado em 1872,  foi, no início, um lugar onde bandas de música tocavam dobrados, e espetáculos ao ar livre atraíam as elites. Mas em 12 de julho de 1873, o Jornal do Recife publicava artigo em que se denunciava a má utilização do jardim, por moleques e escravos produzindo “cenas que se não podem ver”. Conta Pereira da Costa, (tomo 8 dos Anais Pernambucanos), que numa das festas comemorativas da chamada Patriotada, “ fato de nossa emancipação política”, em banquete de celebração, os convivas receberam um ramalhete composto de uma sempre-viva e uma perpétua, acompanhadas de um croton verde e amarelo, chamado Independência. A cada entrega de buquê era recitada uma quadrinha: “Sempre-viva a Independência /E perpétua a luta seja!/ E o domínio lusitano /Nesta terra não se veja.” Acrescenta Pereira da Costa: o referido cróton, por muito tempo, era levado por soldados e oficiais da tropa de primeira linha nos desfiles de sete de setembro, por trazerem as cores do Brasil.

Em 1810 o piauiense Manuel de Arruda Câmara ofereceu ao Príncipe Regente um Discurso sobre a utilidade de jardins nas principais províncias do Brasil. Preocupado com a devastação de matas e campos naturais, preconiza a criação de hortos públicos, com plantas de países estrangeiros. Que os diretores desses hortos entendam de agricultura, de botânica, que saibam desenhar e descrever as “plantas novas e raras que se criarem no seu Horto”. Mas só em 1811 foi fundado o Jardim Botânico de Olinda, cuja direção foi entregue ao francês, Etienne Paul Germain, com plantas trazidas de Caiena: carambola, fruta-pão, groselha, banana, cacau, jacas. As plantas se aclimataram bem, e com elas vieram flores: oito pés de lilás, da Pérsia. Amarilis, jasmin, junquilho, da India, magnólias, narcisos. As mudas de árvores foram posteriormente distribuídas gratuitamente entre os interessados em as cultivar em seus sítios e engenhos (continua).

* Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

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