Ascensão da China: muda o Ocidente?

Alexandre Rands Barros *
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Publicação: 02/12/2017 03:00

A sociedade chinesa concebe de forma diferente a relação entre governo sociedade e cidadão. Enquanto a cultura ocidental restringe mais a sociedade e os governos para defender os direitos individuais, na China ela restringe mais as liberdades individuais em prol dos interesses da sociedade e de seu governo. Na Índia, a sociedade recebe um papel mais destacado do que os governos, mas também há a proeminência da sociedade sobre os indivíduos, aí com um papel mais forte das famílias. Essas concepções independem de regime de governo, sendo esses últimos mais transitórios, enquanto a concepção cultural é mais permanente. A recente deterioração do mundo ocidental por causa da ascensão de Trump nos EUA e as dificuldades internas da União Europeia, que não consegue se entender, tem levado a um crescente poder econômico da China, cujo governo já começa a vislumbrar a possibilidade de exportar também concepções de mundo. Será que a crise do mundo ocidental vai trazer uma nova era em que as relações dos indivíduos com governos e sociedade serão diferentes do que temos hoje?

Vale salientar que a hegemonia das relações entre indivíduos, sociedade e governos, como concebemos atualmente, tem pouco mais de duzentos anos. Até a idade moderna, a cultura ocidental definia relações que se assemelhavam mais às chinesas; à época tendo a religião e seu poder social como base para restringir os direitos individuais em prol de supostos interesses sociais. Ou seja, uma nova mudança pode ocorrer e ela não tem que ter a religião como instrumento, podendo basear-se apenas na visão de que há um coletivo concreto e importante o suficiente para justificar subjugar os indivíduos. No próprio Ocidente há países que têm essa concepção mais forte do que nos EUA, mesmo que não tão forte como na China. Suécia e Suíça são exemplos. A Alemanha radicalizou nessa visão e pôs os pés pelas mãos, causando uma guerra violenta.

Essa mudança de percepção de equilíbrio pode ser feita a partir de intercâmbios universitários, exportações de conteúdo audiovisual, materiais impressos ou digitais e demais instrumentos de comunicação, além de participação ativa nos diversos fóruns internacionais, sejam eles governamentais, acadêmicos ou de qualquer outra natureza. Cada vez mais a China penetra mais em todos esses instrumentos de difusão de concepção de mundo e a visão introspectiva dos EUA, sob o comando de Trump, reduz a força do principal defensor dos valores ocidentais. Vale lembrar que no Japão domina concepção semelhante à da China e esse já tem penetração cultural no Ocidente muito maior. Se a China começar a crescer no vácuo deixado por essa penetração do Japão, mas com recuo subsequente, o caminho para a mudança das concepções no mundo pode ser mais curto. A Índia, que assim como a União Europeia, poderia ser um foco importante de resistência, por seu tamanho e solidez cultural, ainda se bate internamente com seus próprios problemas e não se projeta para o resto do mundo. A América Latina ainda não tem solidez cultural suficiente e também é muito dividida culturalmente no que diz respeito a essas relações, pois nossos nativos aproximavam-se mais do que é a China hoje, enquanto os colonizadores aderiram à cultura ocidental. Ou seja, o esgaçamento do mundo ocidental pode vir a precipitar o mundo em uma nova revolução cultural. O xiitismo ambiental pode ser uma das sementes importantes desse novo mundo. Os adeptos da filosofia da história de Hegel certamente não veem a possibilidade de a China protagonizar tal papel de mudança, pois acreditam que há uma organização institucional naturalmente melhor e que vamos convergir para ela, de uma forma ou de outra. Entretanto, espero que se tal mudança ocorrer, pelo menos não venhamos a criar inquisições e campos de concentração como no passado.

* Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

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