EDITORIAL » Os ganhos das exportações

Publicação: 01/12/2017 03:00

As micro, pequenas e médias empresas são as principais empregadoras do país. Incentivá-las, portanto, é uma obrigação do governo. Ao longo de muito tempo, todos os olhos estiveram voltados para as grandes companhias, como se, somente elas, fossem responsáveis por tocar o crescimento econômico do país. Chegou-se ao ponto de usar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como instrumento para criar gigantes nacionais, canalizando todos os recursos para os escolhidos enquanto as firmas de pequeno porte morriam à míngua.

Essa política foi tão equivocada que os estragos provocados por ela são sentidos até hoje. Alguns dos gigantes nacionais ruíram, como o grupo liderado por Eike Batista. Outros entraram em processo de recuperação judicial, como a telefônica Oi. E outros foram engolfados pela corrupção, como o JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Para sustentar esses escolhidos, o Tesouro Nacional teve que injetar recursos no BNDES, o que contribuiu para agravar o rombo das contas públicas, que está muito longe de ser revertido.

Se o governo tivesse optado por estimular os negócios das empresas de menor porte, com financiamentos mais acessíveis, certamente boa parte dos problemas econômicos que o Brasil enfrenta hoje não estariam nos atormentando. Essas firmas não precisam de muito. Necessitam de crédito, de apoio à exportação e de boa educação para ter mão de obra mais capacitada. Crédito ainda é um problema, pois os bancos privados não querem saber desse grupo de produtores e as instituições públicas fingem que emprestam. O sistema educacional, por sua vez, é um desastre. O único alento está no apoio à exportação, no qual, se ressalte, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex) tem se esforçado para colocar as mercadorias dos pequenos na rota internacional.

Para se ser uma ideia, entre 2015 e 2016, enquanto as exportações gerais do país caíram 3%, as vendas das microempresas para o exterior avançaram 14,7% e a das pequenas cresceram 10%. São dados a comemorar, mas é preciso muito mais. Mesmo sendo 98% de todas as companhias registradas no Brasil, as pequenas firmas representam muito pouco do comércio internacional. Em valores, respondem por, no máximo, 5% do total. Isso mostra que, além dos incentivos do governo, as empresas têm que passar por uma verdadeira revolução cultural. Não podem mais se focarem apenas no mercado interno, por maior que ele seja. Quando se finca os pés fora do país é possível atrair conhecimento, sobretudo no campo tecnológico. É questão de sobrevivência.

O Brasil como um todo deve abrir os olhos para o comércio global. Como uma das 10 potências econômicas do planeta, não pode se contentar em ser o 25º exportador. As barreiras, no entanto, não estão lá fora. Habitam aqui. São o excesso de burocracia, a carga tributária pesada, as leis atrasadas, a infraestrutura deficiente. Para debelá-las, somente um governo comprometido com a modernidade. Se realmente conseguirmos superar esses gargalos cantados em verso e prosa, todos ganharão. As micros, as pequenas, as médias e as grandes empresas, os trabalhadores, a nação. Deixaremos de ser um mero exportador de commodities para disputar o trilionário mercado de manufaturados, de alto valor agregado. Mãos às obras.

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