Turismo Acessível

Maurício Rands *
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Publicação: 27/11/2017 03:00

O turismo já esteve concentrado em alguns poucos destinos e pessoas. Recentemente, todavia, pesquisas da Organização Mundial do Turismo (OMT) revelam uma forte tendência à descentralização. De destinos, mas também das pessoas que viajam. Com diferentes poderes aquisitivos, nacionalidades ou capacidades físicas e mentais. Em torno das diferenças de capacidades, desenvolveu-se o conceito de turismo acessível. Um movimento que visa à redução das desigualdades estruturais nas atividades turísticas, gerando acessibilidade para todos nos hotéis, restaurantes, lojas, casas de espetáculos, museus e parques. Uma poderosa ferramenta para promover a inclusão das pessoas com alguma forma de deficiência. Seja locomotiva, visual, auditiva, intelectual ou mental. Visa-se a eliminar barreiras para brindar serviços inclusivos às centenas de milhões de pessoas com deficiência. Ou com requerimentos especiais, como prefere Carlos Vogeler, diretor executivo da OMT. Ou com capacidades diferentes, como anuncia o microfone do aeroporto da Cidade do México.

Para uns, é uma causa. Como para o madrileno Diego Gonzalez. Casado com uma catalã, logo percebeu a importância da convivência com as diferenças. Em sua casa, o conflito independentista nunca teve morada. Conta-me que há 30 anos tornou-se um pioneiro do turismo acessível. Hoje preside a Red Española de Turismo Accesible. Há um ano uma doença degenerativa começou a lhe tolher os movimentos das pernas. Fala-me sobre a ironia do destino. E realça que a sua luta pelo turismo acessível é, em verdade, uma luta que beneficia a todos. Porque todos nós temos ou teremos alguma ‘descapacidad’.

O turismo acessível também é uma causa para José Grinaldo Colmenero, que nasceu no interior do México e ainda criança teve amputadas as duas pernas. Com a escola, começou a viajar em seu país. A princípio, arrastando-se. Depois, com bolsa de estudo no Chile, com sua cadeira de rodas ou prótese. Hoje, profissional independente, dá consultoria às agências de viagem especializadas em turismo acessível.  Faz, ele próprio, turismo de aventura. Rafting, tirolesa, body jumping, salto de paraquedas, ele me conta que já fez de tudo. E mostra os vídeos ou fotos. Até escalou a trilha de Matchu Pichu, contra o protocolo da agência em que trabalhava sua guia. Mas que, ‘por empatia’, admitiu deixá-lo tentar. Contei-lhe que também já fiz quase todas essas modalidades de turismo de aventura. Exceto o body jumping. Que Diego e eu, na Serra Gaúcha, recuamos depois de já equipados. Quando avistamos as pedras que apareciam no rio, embaixo de uma ponte que nos pareceu ter mil metros. Para a greia de Patrícia e Tatiana, que tinham ido até o rafting. Grinaldo define-se como ‘viageiro’. Três continentes, 13 países, 70 cidades. Lugares e atividades aos quais pessoas com menos dificuldades não se aventuram. Preferem os destinos convencionais e perdem na qualidade do turismo que praticam. Como um certo amigo que ia sempre ao Rio. Mas que, descobri quando lá fui com ele, só ia mesmo era ao Posto 1 de Copacabana. Para outros, a viagem resume-se a conhecer um ou outro ponto famoso e a visitar todos os shoppings que puder. Para voltar cheios de sacolas. E, claro, tirar muitas selfies para postar nas redes sociais.

* Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

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