O tempo dos tempos: perdas e saudades

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras e membro da Academia de Artes e Letras de Pernambuco

Publicação: 25/11/2017 03:00

Confesso a minha grande saudade da amiga Miriam Gonçalves Fernandes. Não tivemos irmãs, assim, fomos irmãs uma da outra. Ela nascida em 1928, eu em 1926. Meus filhos a chamavam de tia. Mauro Mota à época, entre outras funções, foi assessor direto do grande jornalista Aníbal Fernandes, diretor por muitos anos do Diario de Pernambuco, “o jornal mais antigo da América Latina”. Os pais de Miriam moravam em um belo casarão na Av. Boa Viagem. Sua mãe Dona Fédora, professora da Escola de Belas Artes de Pernambuco, pintora, irmã de Vicente e Joaquim do Rego Monteiro. Todos estudaram em Paris. Na minha sala tenho quadros dos três irmãos Rego Monteiro. Em frente à casa de Miriam, o mar nos chamava. Raros os domingos que não íamos à praia. Comigo, levava minha neta Mirella de quatro aninhos, ela não esquecia o estojo de maquilagem, chamando atenção e fazendo sucesso nas barracas vizinhas.

Com Miriam e Lala, pela primeira vez, viajamos à Europa. Em Paris, andamos de fazer bolhas nos pés, procurando a Rue Du Bac, com devoção a Capela da Medalha Milagrosa, onde pedi para me curar do câncer de mama. Na Rive Gouche, batalhamos por uma mesa na calçada do Café de Flore, frequentado pelo grande romancista português, Eça de Queiroz. Com sacolas de compras, subimos pelo elevador da estação do metro à colina de Montmartre, um lugar charmoso, onde do Sacré Coeur, com os seus 200 degraus, tem-se uma bela vista panorâmica da cidade de Paris. Aquela teria sido a nossa última viagem juntas.

A querida Mirian, mal completara 90 anos, a vida, aos poucos, fora a distanciando de sorrir, de falar de alegrias e esperança; acometida do terrível mal de Alzheimer, Deus a levou neste 11 de novembro.  Deixando encobertos de saudades os seus amados filhos: Luiz Antônio, Rosamaria, Paulo, Lala, Marcelo e todos os netos. E nós outros que a amávamos.              

Em 22 de novembro, há 33 anos se foi nosso amado poeta, festivo, generoso, lisonjeiro, deixando-nos aos 72 anos, interrompendo suas anunciadas memórias do esqueleto.  No seu Livro Aforismos, escreveu: “Difícil é escrever fácil”. Recriou também no seu livro Os Bichos na Fala da Gente: “Do Bicho do pé ao bicho de sete cabeças”, dedicado as nossas filhas: “À Luciana que amou um ursinho amarelo de pelúcia. À Teresa, dona do cágado Salomão e da graúna Rita”. Mencionando o amigo Gilberto Freyre: “trouxe para a sociologia as relações entre os homens e os animais, nos antigos engenhos de açúcar do Nordeste”.

Esses engenhos que adoçaram a minha infância, próximos à minha acolhedora cidade de Bom jardim, onde todos se conheciam pelos nomes, até os pobres pedintes. Antes de dormir os filhos pediam a bênção aos pais. Não havia telefone; aparelhos de rádios, em poucas casas. Meu pai escutava a PRA 8 - Rádio Clube de Pernambuco, em 2019 terá o centenário comemorado. Guardo uma época  da minha vida de menina, da qual não me distancio.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.