EDITORIAL » Em busca do entendimento perdido

Publicação: 25/11/2017 03:00

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem sido nos últimos tempos uma voz dissonante na política brasileira, mas no sentido positivo. Enquanto o discurso dos líderes políticos em geral é marcado por um clima de confrontação, FHC tem buscado o entendimento. Enquanto outros parecem mais interessados em jogar combustível em fogueiras, ele age no sentido de procurar apagá-las. Faz isso sem deixar de criticar adversários ou de apontar eventuais erros deles - quando assim o faz, é mantendo um patamar de respeito. Político e intelectual experiente, FHC sabe que a arte da política não consiste em destruir ou tirar de cena os adversários, mas de conviver com eles e vencê-los democraticamente.

Ontem a imprensa publicou declarações dele, referindo-se ao seu partido, o PSDB, que valem para a política em geral. “Nós estamos na antevéspera de uma decisão importante no ano que vem, que é a eleição para presidente da República, e é preciso que os partidos pensem grande, em vez de só pensar nas pequenas diferenças. O que estou pedindo ao PSDB é que olhe para frente e abrace causas, em vez de ficar discutindo o pequeno poder”, disse ele, acrescentando, mais adiante: “Nós temos de acabar com essa mentalidade sectária de ser contra ou a favor dependendo do partido que faz a proposta”.

Há um certo idealismo no raciocínio de FHC - sabemos todos nós que na vida real o “pequeno poder” e as “mentalidades sectárias” costumam ter papel de destaque na política cotidiana. É importante, porém, que haja líderes e forças se contrapondo a isso, para tentar evitar que essas distorções se propaguem e contaminem o tecido político como um todo. Para que se tenha uma ideia de como se encontra a situação no momento, basta ver que, em que pese a autoridade moral e intelectual de FHC, nem dentro do seu partido ele é acatado sem contestações. É ouvido, retoricamente reverenciado, mas não necessariamente suas ponderações tornam-se prática entre os tucanos.

As lideranças são necessárias para tirar o país do atoleiro político em que se meteu, com poderes e instituições sob questionamentos e desconfianças. Não temos de concordar com tudo que dizem, nem muito menos tornar-se seus seguidores, mas em momentos de crise é indispensável que o país tenha lideranças capazes de apontar um Norte, de indicar caminhos.

Uma agenda pública, transparente, faz falta ao Brasil, neste momento. Estamos sob um clima de todos contra todos e salve-se quem puder. Quem investe neste clima o faz pensando que pode tirar daí algum proveito, mas está enganado. Está investindo em um terreno movediço, e cedo ou tarde será também tragado por ele. É preciso - como tem feito FHC - buscar um entendimento mínimo para assentar as bases da normalidade. Isso não significa deixar de apontar erros dos adversários nem fechar os olhos para os malfeitos. Significa buscar uma saída para que não fiquemos todos sob o jugo do pequeno poder, enredados numa crise que faz mal à política, aos políticos, à sociedade brasileira e ao país.

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