Bairro do Recife: a evolução que a cidade precisa

Fortunato Russo Neto
Engenheiro Civil (UFPE), mestre em Economia e Finanças (FGV/EPGE) e consultor de Lima e Falcão Advogados.

Publicação: 24/11/2017 03:00

Há mais de vinte anos, a Prefeitura do Recife fez uma intervenção de muito sucesso na Ilha de São José, mas ela se mostrou insustentável. Ainda estudante, lembro-me da efervescência que era sair à noite para o Recife Antigo. Uma tentativa de aproveitar a zona boêmia para ser um ponto de encontro da juventude. Uma maneira de a sociedade abraçar a cidade.

O mercado à espera de oportunidades, a juventude com um novo local para se encontrar e a cidade querendo viver, ter para onde ir. E isso num tempo em que a febre era as tardes de sexta-feira em algum shopping center (matéria, inclusive, de telejornal nacional). Uma lástima. O ambiente fechado, mas seguro, substituindo a rua. O quadrilátero formado pela Rua do Bom Jesus, Rua Barão Rodrigues Mendes, Rua do Apolo e Avenida Barbosa Lima era o epicentro daquele movimento. Havia bares, restaurantes e boates para todos os gostos.

Esses empreendimentos, salvo raras exceções, foram efêmeros. O período de meia-vida é curto demais. O erro cometido, na época, e percebido pelos urbanistas, foi o esquecimento de que, para um local ter vida, ele precisa ter movimento durante 24 horas. Era necessário um projeto que atraísse moradia, serviços do dia a dia, hotelaria, comércio.

Na realidade, foi recriada no local outra modalidade do comércio existente nos bairros de São José e Santo Antônio, mas com os sinais trocados. Nessas localidades, o comércio funciona de dia e o silêncio reina à noite. No Bairro do Recife, as portas eram fechadas à luz do sol e a festa acontecia à noite. Situação fadada ao fracasso. Mas, em um movimento de sucesso entre o governo, a universidade e a iniciativa privada, surgiu no ano 2000 o Porto Digital, um parque tecnológico de segunda geração, com a característica principal de estar dentro da cidade e com os objetivos de reter a mão de obra qualificada, dando-lhe oportunidade de se desenvolver e empreender e mais uma vez tentar revitalizar o Bairro do Recife.

Segundo o site do parque tecnológico (www.portodigital.org), atualmente são abrigadas na região 267 empresas, organizações de financiamento e órgãos governamentais. São cerca de 8.500 trabalhadores de um meganegócio que, em 2015, teve um faturamento de R$ 1,4 bilhão. O Porto Digital é um exemplo de que se algo é bem planejado entre governo e iniciativa privada, é possível alcançar o sucesso. Desde sua fundação, e até o momento, o PD restaurou mais de 50.000m2 de imóveis históricos no Bairro do Recife. Sem dúvida, um avanço.

Além do investimento inicial de R$ 33 milhões, provenientes da venda da Celpe, feito pelo governo do estado para a criação do Porto, os governos que se sucederam - municipais e estaduais -, cada um a sua maneira, contribuíram para a melhoria do local, a exemplo da Rua da Moeda, a revitalização do Marco Zero, os galpões do Cais do Porto, os museus e centros culturais, entre outros. No entanto, a manutenção dos equipamentos tem deixado a desejar, e não se vê investimentos em calçadas mais largas, em ruas mais arborizadas e ciclovias, apesar da criação de uma rua para pedestres, que, mal planejada, praticamente levou à bancarrota os comerciantes do local. Agora, essa rua está sendo conectada ao Marco Zero. Uma boa iniciativa. Parques tecnológicos de terceira geração são complexos empresarias com foco em novas tecnologias, integrando o local de trabalho a áreas de moradia, serviços e espaços para esporte e lazer.

O Porto Digital tem evoluído, adaptando-se aos novos tempos, e se tornou um centro de economia criativa - não apenas de Tecnologia da Informação. A eterna dicotomia dos empreendimentos imobiliários sobre o que vem primeiro (comércio/serviços ou residência) parece ter sido resolvida no caso do Bairro do Recife. Complementar o mix de usos na região é fundamental para o contínuo desenvolvimento do local. Principalmente para se aproveitar o novo comportamento social. Hostels, co-working, apartamentos para moradia, hotéis e flats, novos cafés e restaurantes. A evolução do novo Bairro do Recife urge. Recife precisa.

PS: Agradeço ao arquiteto Milton Botler, que muito contribuiu nas questões técnicas desse artigo.

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