O Governo das almas

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 21/11/2017 03:00

Que imagens temos nós do que foi o começo da colonização do que é hoje o Nordeste brasileiro e sobretudo de como pouco a pouco o que era, no dizer de um religioso, uma ocupação que se fazia ao modo de caranguejos, ao longo das praias foi se encaminhando em direção do interior. Sabemos por livros escolares, ou por compêndios que aprofundam a questão, que houve o interesse pelo pau-brasil, que se devastou grande parte da mata atlântica, que tribos indígenas resistiram ao invasor, lutando para conservar seus costumes e  suas terras - uma luta que ainda continua, para nossa vergonha. Mas um mergulho na vasta documentação relativa à expansão colonial, evidencia o modo como paulatinamente se efetuou essa marcha para o interior,para “aquelas solidões vastas e assustadoras” no dizer de um religioso francês, o padre Martin de Nantes, em relatório para sua ordem na França. O livro de Marcos Galindo, de que demos noticia na semana passada, intitulado O Governo das almas, nos faz não só entender os modos digamos “pouco católicos”(?!) empregados para se tomar posse das terras, para se instalar o poder naquelas terras do Sertão ou ao longo do São Francisco, na destruição do que se chamava a “barbárie” através das apelidadas “guerras justas”. Galindo lê e relê relatórios de missionários como o citado Martin, como seu colega Bernard de Nantes, como De Lucé, como André Thevet, descrevendo costumes indígenas, seu conhecimento de plantas para se curar doenças, por exemplo. Sua sabedoria no modo de viver, de dirigir politicamente as comunidades. Sua sábia relação com a morte e com os mortos, a antropofagia, que causa horror a princípio, que o europeu não aceita mas termina por entender Ao que parece, colonizadores de volta à pátria, levaram em suas bagagens provisões de gordura humana, recolhidas nas cenas de antropofagia, propiciadoras de curas de feridas. Que se pense no quadro de Eckhout, onde uma índia traz em seu cesto, entre outras iguarias, e com a maior naturalidade, um pedaço de perna humana. Mas o interesse do livro da Marcos Galindo vai além. Estuda como se processou a doação, a demarcação ou a tomada de terras por meio da força, analisa o poder  de organizações como a Casa da Torre e sua decadência. Em um dos capítulos, Galindo anuncia uma razoável quantidade de preciosas ilustrações, que recolheu em importantes bibliotecas europeias. Dessas ilustrações, talvez por inexplicáveis razões de economias, só algumas raras foram aproveitadas pela Hucitec, editora paulista que publicou o livro, uma pena. Como aquela do livro de André Thevet que mostra índios colhendo cajus. Uma pequena obra-prima.

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