EDITORIAL » Resistência é ato cotidiano

Publicação: 21/11/2017 03:00

Um ator negro, em São Paulo, foi confundido com ladrão. Pediu ajuda aos seguranças de um terminal de ônibus da capital paulista, que o julgaram criminoso e não titubearam para entregá-lo ao grupo de homens que o perseguiam. O ator foi espancado e teve seus pertences roubados — os acusadores eram os verdadeiros bandidos. O episódio ocorreu no dia 15 último, na capital do estado mais rico país, às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra.
O fato ilustra o cotidiano da maioria dos afrodescendentes brasileiros, alvo do racismo, do preconceito e de muitas outras expressões de violência. Recente estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que o número de homicídios no país chegou a 61.619 em 2016. A maioria das vítimas é negra. Entre 2009 e 2016, 21.897 pessoas foram mortas por intervenção das polícias Civis e Militares. Deste total, 76,2% eram negras. Pior: os matadores são, na maior parte, homens pretos ou pardos.
A violência ganha contorno institucional quando o poder público constata, por meio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que os negros somam 60% dos mais de 13 milhões de desempregados. Aqueles que tiveram uma oportunidade ganham 56,2% da remuneração paga aos brancos e ocupam os piores postos de trabalho. Entre os empregadores, só 33% são pretos ou pardos. Faltam políticas públicas para corrigir tamanha distorção, embora os negros somem mais de 56% da população brasileira.
Os afrodescendentes ainda são invisíveis ao poder público. No campo da educação, em 2015, os negros detinham só 13% das vagas nas instituições de ensino superior. O analfabetismo, entre pretos e pardos chega a 22%, contra 5% entre os não negros. O sistema de cotas foi um dos poucos gestos do Estado brasileiro de reparação das desigualdades impostas aos descendentes de homens e mulheres livres, que foram sequestrados, tornados escravos transformados em força motriz do desenvolvimento econômico do Brasil. Na Alemanha, as vítimas de Hitler foram indenizadas pela insanidade do ditador alemão, que impôs o holocausto aos judeus.
Entre as muitas hipocrisias brasileiras, a democracia racial é uma delas. O poder público continua omisso ante o assassinato dos pretos, ante a intolerância religiosa dos fundamentalistas, que apedrejam crianças e mulheres. O crime de racismo atenuado pela injuria racial e não há punição aos autores.
Direitos conquistados na Constituição de 1988 estão sucumbindo aos interesses do poder econômico. O setor público não é só leniente com os que reproduzem o mesmo sistema de escravidão do início do século 16. Está curso um processo para suprimir dos quilombolas seus territórios tradicionais. Será a repetição da repercussão da Lei Áurea, que deu suposta liberdade aos negros, mas não lhe concedeu instrumentos para sobreviver em meio aos seus exploradores. A resistência de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, morto há 322 anos, ainda é exercício diário de homens e mulheres de pele preta, numa sociedade que nega uma das suas principais características, a miscigenação, seja por ignorância, seja pela ilusão de que no mundo existe uma supremacia branca.

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