O Agreste empreendedor e a seca do século

Publicação: 20/11/2017 03:00

Pernambuco é um estado ímpar. Não tenho dúvidas disso. A nossa psicologia, carregada de ufanismos e contradições, reflete esta singularidade e não deve dar muita margem de entendimento ao visitante menos avisado. Segundo Raimundo Carrero, somos um estado tradicionalista que vai junto com a vanguarda. Vá entender! Qualquer pernambucano, não importa a classe social, com tom de voz baixo e com muita humildade, em algum momento lhe descreverá pelo menos um dos vários patrimônios maiores ou melhores do mundo que só “aqui que tem”. Razões históricas e intelectuais de peso não nos faltam para explicar esse sentimento de pertencimento a algo maior, melhor e até pior, mas inegociavelmente único, impregnado na nossa identidade.
O Agreste pernambucano, uma região de transição entre a Zona da Mata e o Sertão, com um clima mais ameno e maior índice pluviométrico do que este último, está sendo chamado de “Novo Sertão”, por ter sido mais impactado do que o próprio nesta seca que, iniciada em 2011, ainda não acabou. O singular é que, segundo os últimos dados consolidados do IBGE referentes à década encerrada em 2014, portanto incluindo a seca, este mesmo Agreste, sem nenhum investimento estruturador de peso e infraestrutura precária, foi a região de Pernambuco que mais aumentou a participação no PIB estadual (5,2% ao ano). Este aumento médio anual foi maior do que o do estado (4,1%) e do que o da Região Metropolitana do Recife (3,9%).
A tão sonhada segurança hídrica para a região, que viria através da construção da Adutora do Agreste, ligando três importantes bacias pernambucanas - Capibaribe, Ipojuca e Una - e abastecendo 68 municípios com as águas do São Francisco, não foi concluída no prazo, muito por atrasos e paralisação de repasses federais. Ademais, a interligação entre o Eixo Leste da Transposição e a Adutora, o chamado Ramal do Agreste, nem saiu do papel. Isto agravou a crise de escassez atual e vem exigindo o desenvolvimento de soluções emergenciais – como os Sistemas Adutores de Pirangi, Moxotó e Serro Azul – para levar água ao Agreste através de outras fontes de financiamento. Resultado: dos 28 municípios em colapso em Pernambuco, 25 são da região e apenas duas das suas 71 cidades não decretaram estado de emergência no final de 2016.
Significativas perdas econômicas foram registradas, principalmente nos setores mais intensivos em água como a bacia leiteira (redução na produção de 45%) e a produção de jeans. As lavanderias, consideradas o coração do polo têxtil do Agreste, foram em grande número fechadas, muitas pelos altos custos da água devido ao colapso do mais importante reservatório da região, Jucazinho. O genial cineasta Claudio Assis colocou uma frase autoral como mote de seu último filme Big Jato: “Quem não reage, rasteja!”.
Não por acaso nativo da região, os seus conterrâneos definitivamente mostraram não ter nenhuma vocação para se arrastar. Alguns produtores de jeans investiram na infraestrutura de reúso, apostaram nele e conseguiram uma sobrevida, mantendo empregos. Além do reúso, investimentos privados em grandes reservatórios para armazenar água de chuva e não perder “nem uma gota”, foram feitos por centros atacadistas. Muitos pecuaristas deixaram a história de gerações para trás e substituíram a atividade de pecuária pela criação de aves. Isto ocorreu principalmente por ser a criação de galinhas mais eficiente no uso da água do que a pecuária, e mais ainda a produção de ovos.
Na prática, o que os agentes econômicos estão fazendo no Agreste é otimizando o uso da água, uma importante estratégia de gestão de demanda, sobre o qual escreverei em seguida. Por puro instinto de sobrevivência, o Agreste empreendedor está tornando o uso da água mais eficiente, reduzindo as perdas e transferindo os recursos escassos para setores que agregam um maior valor para a sociedade, contribuindo para o desenvolvimento social e econômico do estado. Uma belíssima aula de economia dos recursos hídricos!

* Economista

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