EDITORIAL » Hora de tirar os pés do atraso

Publicação: 20/11/2017 03:00

As estatísticas são cruéis. E, no Brasil, elas não deixam de nos envergonhar. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, dos 12,9 milhões de desempregados no país, 8,2 milhões, ou 63,7%, são negros ou pardos. Mais: os negros e os pardos que estão no mercado de trabalho recebem, em média, 55,5% dos salários pagos aos trabalhadores brancos. É uma desigualdade inaceitável.
Como diz o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, “o Brasil já conhece essa diferença, mas é importante reforçar que ela existe e que não vem se dissipando ao longo dos anos”. Mesmo com todas as políticas inclusivas que foram colocadas em prática na última década, é possível verificar que pessoas pretas e pardas estão sempre em desvantagem no mercado de trabalho. Têm maior dificuldade para entrar e, quando entram, recebem salários menores.
O país, no entanto, não pode mais aceitar conviver com tamanha disparidade. É preciso investir maciçamente em educação de melhor qualidade, sobretudo nas áreas mais pobres das periferias das grandes cidades, onde se concentram os maiores contingentes de negros e pardos. A cada 23 minutos, um jovem negro morre vítima da violência, a maioria nessas regiões. Boa parte deles sequer concluiu o ensino básico.
O sistema de cotas adotado pelo país nas universidades foi preponderante para que essa parcela da população tivesse acesso às salas de aula, mas ainda é insuficiente. Foi um primeiro passo. O trabalho para mudar o destino de negros e pardos — vítimas de racismo estrutural e institucional — tem que começar na base, desde cedo, com as crianças. Esse é o caminho mais correto para o país romper de vez com esse ciclo nefasto, de falta de educação de qualidade e de perpetuação da pobreza.
Meninos e meninas que passam pelo banco escolar multiplicam as chances de mudarem seus destinos, de darem fim à vulnerabilidade juvenil, que tanto prejuízo acarreta ao país. Têm, inclusive, condições de escolherem melhor seus governantes e de serem mais bem representados em todos os Poderes. Negros e pardos são maioria absoluta da população brasileira, mas não se veem na Esplanada dos Ministérios, no Legislativo e no Judiciário. Não em cargos de liderança e de chefia.
Se o país não enfrentar de vez esses problemas, de pôr em prática políticas afirmativas eficientes, todas as mazelas que estampam o noticiário diariamente continuarão se repetindo. Pior, sem uma reação de repúdio da sociedade. Jovens negros continuarão morrendo, mulheres negras permanecerão no topo da lista das vítimas de feminicídio e trabalhadores negros e pardos manterão os dois pés no subemprego. Diante desse quadro dramático, não há como se falar em futuro. Pobre Brasil.

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