Carta de amor e encanto

Nagib Jorge Neto
Jornalista

Publicação: 09/11/2017 03:00

A obra era sempre uma forma de canto, com som, arte, beleza. A sonoridade na  poesia, na prosa, na forma e conteúdo, enriquecia o fazer literário na sua ilha, no Maranhão e no país. Não era vasta, mas plural - linear ou rica de símbolos, ora diante da magia do mar, do sal, ou das veredas do sertão, de sua paisagem seca e poética.
Assim, Manoel de Jesus Lopes – poeta, professor, cronista, repórter – legou ao seu estado, ao país, pequenos livros e arte maior que permanecerá viva. A sua partida, neste novembro, aos 88 anos, abre espaço para uma reflexão sobre as ilhas culturais que marcam a produção cultural em nosso país - as obras editadas no Centro Sul e Sudeste ganham espaço na mídia, livrarias, bancas e redes sociais em quase todo o país.
A sua obra, sem dúvida, está ao nível de outros poetas de sua geração, no Maranhão - Bandeira Tribuzi, Nauro Machado, Lago Burnett, José Sarney, Ferreira Gullar, José Chagas, José Maria Nascimento, Fernando Braga, Nascimento Morais Filho; no Nordeste Mauro Mota, Carlos Pena Filho, José Alcides Pinto, Ascenso Ferreira e Austro Costa. Em sua vivência no Recife, o poeta Lopes preferia ser uma “voz no silêncio” na visão de Lago Burnett, pois não reuniu os poemas de “Ofïcío no Escuro”, que Burnett esperou para uma edição pela Livraria São José.
Essa posição de Manoel Lopes – discreta e distante da gloria vã – era parte de sua atuação na Ilha, no jornalismo e na literatura. Quase sempre produzia, guardava e editava depois de revisar sua poesia, reunida por Sebastião Duarte em “O Verbo Contido”. Do conjunto da obra a conclusão de que é “lírica e lúdica, cristã e pagã” marcada por amor, resistência e esperança, constantes na sua criação.

“ó minha s. luís dos amantes e dos miseráveis!

estou só e cavalgo as tuas asas enormes paradas no tempo,

a esmagar o meu sonho em tuas catedrais.

e afogar minha fé no sal das tuas águas.
que queres mais de mim?

não há canteiros

mas um humilde hortelão cresce no teu amor”.

Assim como na Carta Poema, a resistência, o protesto.

“Dormem sobre este chão o corpo e os pés

de amargas caminhadas sobre o sonho

de um mundo e liberdades nunca havidos.
               * * *
Por enquanto é caminhar

contra o rastro e a força vã

– a antiliríssima  força –

dos que furtaram a manhã”.       

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