Uma conversa simpática

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 07/11/2017 03:00

Buscando na telinha algo além de crimes, atentados, assaltos, delações – pois há dias em que mesmo desejando estar a par do que vai no mundo, ai de nós – o espírito (ia escrever a alma) exausto quer descanso, deseja pensar que outras coisas existem além dessas cicatrizes que andam marcando o corpo da humanidade. E encontra uma entrevista com J.M. Le Clézio, Prêmio Nobel há uns anos, falando que nem tudo é miséria no mundo, que existe nele muita beleza, à qual é preciso recorrer. O mínimo para sobreviver; a propósito, vejam no Google o discurso de Le Clézio na cerimônia após o atentado em Nice, e diante de uma plateia comovida, nela incluída o presidente Macron. Mas não era esse meu assunto de hoje e sim de parte de um projeto recentemente criado pela Ufmg, leia-se minha amiga Nadia Gotlieb. Um encontro, ou antes um bate-papo entre a própria Nadia, professora naquela universidade e na Usp e nada menos do que o casal de irmãos entre os mais simpáticos do Brasil no momento, Bethânia e Caetano Veloso. O assunto: Clarice Lispector, o modo como descobriram sua literatura, como o encontro com a autora de Água Viva influenciou seu jeito de ver as coisas, a relação com as pessoas, com a palavras, com o mundo. Caetano, que já se perguntava numa canção Que mistério tem Clarice?, falou de seu espanto inicial e do encantamento diante de A imitação da rosa, que Bethânia lhe dera a ler, ela também fascinada; e que nos fascinou lendo alguns textos clariceanos. Nadia orientou a conversa, nada professoral, lembrou a grande humanidade de Clarice, que inclusive recusava o título de escritora. Logo após o programa, que outro jeito senão desligar a telinha, voltar a Clarice, que fez da escrita um jeito de se dizer, se conhecer? De falar de sua perplexidade diante das coisas, do mundo, sempre prontas a nos surpreender, nós seres mutantes. Tomados às vezes por os instantes de iluminação (Affonso Romano chama de epifanias). E encontrar num conto como Amor, aquela expressão retomada em parte por Guimarães Rosa, quando afirmava que “viver é perigoso”: uma simples dona de casa, com uma vida comum, banal, medíocre, organizada, de repente se sente vivendo algo mais, descobre algo mais em si e nas coisas e pessoas que a cercam. Quando o marido chega do trabalho como que entende o acontecido. Abraça a mulher “afastando-a do perigo de viver”, escreve Clarice, querida Clarice.
Nota: Nadia Gotlieb virá ao Recife em final de abril, ao lado de William Amorim, para participar do Festival de Literatura do Recife, organizado por nossa Academia Pernambucana de Letras e outras instituições como a ABBB, Conselho Estadual de Educação, Andelivros, Ufrpe. A não se perder.

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