Romance volta aos bares num romântico fim de tarde

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 06/11/2017 03:00

Parece  esquisito ou estranho – extremamente estranho, é verdade – que comece o meu artigo de hoje com uma palavra – romântico – expulsa de todos os textos e de todas as conversas, para identificar um momento saudável e rico do nosso atormentado tempo – um bate-papo em bar ou lanchonete da cidade em torno dos movimentos artísticos.
Sinceramente, alegra-me encontrar amigos com quem posso conversar sobre o destino da literatura ou das artes em geral, como fazíamos nas décadas de 60 ou 70 do século passado nos intervalos das aulas ou no fim do período matutino quando comíamos um maltado com um bauru sem tempo para o jantar, esperando pelas reuniões olíticas ou pelos espetáculos da noite, entre lançamentos de livros ou recitais poéticos.
 “O que é mais importante no romance: a forma ou o conteúdo?” Era o tempo do Golpe e o fim da tarde anunciava a noite escura ali na Avenida Conde da Boa Vista, no Pigalle ou no Ouro Branco. Cada um fazia um discurso defendendo um ponto de vista e a conversa não terminava nunca, sobretudo porque ninguém concluía. Começava-se pela literatura até chegar ao campo político. Surgiam, então, os nomes de Stalinavski, Brecht, Gorki, Sartre, Sartre, Sartre. Às vezes Régis Debret, o filósofo francês da guerrilha. Confrontava-se Machado de Assis e Lima Barreto  Um pouco de Callado, Plínio Marcos e Hermillo, Ariano. E os latinos, que nem eram moda, ainda. Inevitavelmente, o Teatro Amador de Pernambuco.
Percebo que esta pergunta está voltando, mesmo sem o radicalismo de outrora nos bares e nas lanchonetes. O  que é bom porque debate-se com mais tranquilidade, apesar do elemento político sempre muito forte. Sempre. Alegra-me que esteja no centro do debate, embora com alguns equívocos. A minha obra é densamente política, mesmo quando não é radical. Faz parte do meu temperamento, questionar sem radicalizar. É o caminho da minha obra. Por aí posso realizá-la em plenitude.
Minha novela A História de Bernarda Soledade – a tigre do sertão – é, em princípio, uma metáfora do poder absoluto e, portanto, uma crítica severa às ditaduras e aos sistemas conservadores e tradicionalistas. Uma contestação ao excesso de machismo que vê na mulher uma moeda para a realização social masculina. Há estudos que destacam este ponto de vista. Basta ler. Evitei e evitarei sempre o panfleto.

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