Outubro se despede deixando mágoas e circunstâncias

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras e membro da Academia de Artes e Letras de Pernambuco

Publicação: 04/11/2017 03:00

Eça de Queiroz escreveu: “Eu aprendi quase a ler nas obras de Hugo, e de tal modo cada uma delas me penetrou que, como outros podem recordar épocas de vida ou estado de espírito por um aroma ou por uma melodia, de repente, ao reler antigos versos de Hugo, todo um passado, paisagens casas que habitei ocupações e sentimentos mortos.” O mesmo acontece comigo e com muita gente. Em muitos casos, retrato-me numa paisagem, numa música ou num perfume que me levam a distâncias.
Tive com os meus irmãos uma infância sem riscos, na casa grande dos engenhos Santa Cruz e Independência, dos nossos avós, em Bom Jardim. Tirava os sapatos para correr pelas campinas, atrás dos ovos e ninhos das guinés e galinhas d’angola. Ganhava quem trazia mais! Subíamos nos carros puxados por bois de canga, as rodas chiando pelos canaviais e caminhos de terra, transportando cana para a moagem do mel puro, separado do chamado “mel de furo”, este canalizado para um tanque no subsolo.
No domingo 22 de outubro, retornando de um final de semana em Gravatá, incrédula, soube da morte do amigo Marcus Accioly, aos 74 anos. Nascido no município de Aliança foi menino do Engenho Laureano, seu universo enraizado. Ilustrou a nostalgia das brincadeiras com boi-de-melão: “Ó melão-de-são-caetano, / eras meu boi-de-cambão, depois foste boi-de-coice,/hoje não és mais boi, não”.
Em 1981, nos presenteou com o Soneto para Teresadolecente. “Teresa cresceu tanto que o soneto / já não pode medir o seu tamanho”.
Os “sentimentos mortos” de que fala Eça de Queiroz são intransponíveis, afastam os antigos acenos, amores e despedidas. Na época em que Mauro Mota lançou e dirigiu o Suplemento Literário do Diario de Pernambuco, de 1947/1959, escreveram em suas páginas: poeta Austro Costa, Tadeu Rocha, Guerra de Holanda; Gilvan Lemos, dele publicou o primeiro trabalho ficcional. Mauro Mota sempre prestigiou a colaboração dos jovens poetas: Jaci Bezerra, Ângelo Monteiro, Alberto Cunha Mello, Paulo Gustavo, Marcus Accioly, Carlos Penna e dos já estreados Nelson Saldanha e César Leal. Este introduziu muitos à consagrada Geração 65.
Uma geração de poetas, consagrados ou não, frequente à nossa casa, à Rua Bento de Loyola. Nos encontros e conversas, nossos filhos estreantes, Maurício Motta com o livro Viagem (Editora Universitária) e Eduardo Motta, com Gaveta e Horas de Agora (Edição Pirata).
Guardei a última crônica do amigo Marcus, publicada no Jornal do Commercio, pouco antes de falecer, uma crônica ao sonetista Dirceu Rabelo, (...) “se engana e confunde seus leitores, ao se dizer – por modéstia – que é um “poeta bissexto.” Dirceu continua escrevendo poesias e agora é que escreve!”.

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