EDITORIAL » A criança como vítima

Publicação: 02/11/2017 03:00

O noticiário local informava ontem a morte do estudante Davi Marinho, um adolescente de 14 anos, frequentador de várias igrejas evangélicas no bairro da Muribeca, Jaboatão dos Guararapes, que foi alvejado por doze tiros após ser confundido com um traficante. Davi é o rosto de uma estatística vergonhosa para o Brasil e para o mundo, ressaltada nesta quarta-feira pelo relatório “Um rosto familiar: A violência nas vidas de crianças e adolescentes”, lançado ontem pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), uma instituição vinculada à Organização das Nações Unidas.
Imagine que, conforme diz o estudo, a cada 7 minutos uma criança ou adolescente, com idade entre 10 e 19 anos, morre em algum lugar do mundo. Seja como vítima de um homicídio ou alguma forma de conflito armado ou violência coletiva. São milhares de mortos inocentes que tombam em consequência de escolhas e disputas de adultos. Quando se fala de mortes não relacionadas a conflitos não armados, a América Latina e Caribe aparecem com os índices mais altos em casos absolutos. Foram 24,5 mil mortes (47%) para 51 mil ao todo, o que para a Unicef é uma desproporção considerando que a região tem menos de 10% de pessoas na faixa etária até 19 anos. Estima-se que nesta região a média de mortes seja quatro vezes maior que à global. Enfatiza-se que os números do Unicef são de 2015, o que se cogitar um virtual aumento porque há indicativos do crescimento em escalada da violência.
O Brasil destaca-se negativamente como sendo um dos cinco países sem conflito armado oficial com as piores taxas em homicídio de crianças e adolescentes do sexo masculino. Considerando a taxa para 100 mil pessoas nessa faixa etária, fica atrás apenas da Venezuela, Colômbia, El Salvador, Honduras.
Há muito a observar neste estudo para fins estratégicos. A se começar pelos fatores de risco para o aumento dos homicídios, entre eles a disponibilidade das armas, a desigualdade de renda e social e a falta de emprego, as questões urbanas e a presença do tráfico de drogas. É uma análise muito precisa. Aqui no Recife, lembra-se que a Muribeca, local onde Davi foi assassinado, é área das mais conhecidas pelo noticiário policial em virtude da criminalidade.

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