Acidentes de moto: vidas perdidas e necessidade da revisão da legislação

Iran Costa
Secretário de Saúde de Pernambuco

Publicação: 01/11/2017 03:00

Nos últimos anos, os acidentes com motocicletas foram os que mais engordaram as estatísticas de óbitos por causas externas no Brasil - que ocupa o segundo lugar no ranking mundial de mortes por moto. Em 2015, foram 11,5 mil óbitos, ou seja, a cada 100 mil brasileiros, sete morrem por esta causa. Em Pernambuco, anualmente, são responsáveis por 75% dos acidentes e 50% dos óbitos de trânsito, tirando a vida de cerca de 800 pessoas. Entre 2006 e 2012, a taxa de mortalidade por moto saltou de 3,9 para 10 óbitos a cada 100 mil habitantes - graças às ações do governo estadual, essa taxa vem reduzindo e está em torno de 9 óbitos por 100 mil habitantes.
O mais grave é que 60% dos acidentes atingem adultos entre 20 e 39 anos. Todos os anos, 30 mil anos potenciais de vida são perdidos no estado, o que destroça famílias e dizima uma parcela da população economicamente ativa. Fora isso, 10% das vítimas sofrem algum tipo de amputação, totalizando 3 mil mutilados por ano. E o reflexo na rede hospitalar não é menos aterrorizante: 45% das emergências e 35% das UTIs estão ocupadas com acidentados de moto. Outra face devastadora dessa epidemia são os custos. Em 2016, a secretaria estadual de Saúde gastou cerca de R$ 600 milhões só com estes acidentados – montante suficiente para manter o funcionamento do Hospital da Restauração por 4 anos, o Hospital de Câncer por 8 e que corresponde a 4 vezes o custo dos programas de cardiologia e oncologia.
Diante desse grave problema e para subsidiar as políticas de Saúde, o governo de Pernambuco implantou, em 2010, um sistema de Vigilância de Acidentes, tornando obrigatória a notificação em unidades hospitalares. Também foi instituído, em 2011, o Comitê de Prevenção aos Acidentes de Moto, que propõe ações nos eixos de legislação, fiscalização, educação e saúde. Para reforçar o enfrentamento e combater a cultura de bebida e direção, a Operação Lei Seca foi incorporada à gestão da Secretaria Estadual de Saúde. Os resultados são animadores: mesmo com o aumento de 11% nas abordagens entre 2015 e 2016, houve a redução de 10% nas multas por alcoolemia, o que já indica uma mudança de hábitos. Também houve a diminuição de 10% na taxa de mortalidade por acidentes de moto no período.
No entanto, para que a redução dos acidentes de trânsito seja permanente, frente à progressão geométrica da frota e mortes por motos, é fundamental o empenho da população com uma maior prudência na pilotagem, já que em 60% dos acidentes é constatado o excesso de velocidade, ou uso de álcool pelo condutor. Também é urgente a revisão e endurecimento da legislação de trânsito pelo Congresso Nacional, com ações como transformar a moto em veículo de uso individual, sem a presença do passageiro; exigências mais severas para obtenção da carteira de habilitação; uso obrigatório de sapatos e equipamentos de segurança; além da obrigação da moto ocupar o mesmo espaço de um carro nas vias.

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