EDITORIAL » Estamos comendo veneno

Publicação: 01/11/2017 03:00

Uma análise realizada pelo Laboratório de Resíduos de Pesticidas do Instituto Biológico de São Paulo em 12 alimentos que fazem parte da dieta habitual dos brasileiros trouxe um resultado assustador: em 35% das amostras foram encontrados vestígios do uso ilegal de agrotóxicos e em 60%, resíduos de pesticidas. Constatou-se em parte do material analisado a presença de agrotóxicos proibidos no Brasil e, no caso dos que são liberados, concentrações acima das autorizadas pela legislação. A lista dos alimentos estudados era composta, entre outros itens, por arroz, feijão, tomate, laranja, banana, mamão, pimentão e café.
“Estamos comendo veneno. Os agrotóxicos estão na nossa rotina”, disse Marina Lacôrte, especialista em agricultura e alimentação do Greenpeace, ONG que encomendou o estudo.  Os  resultados serviram de base para dossiê sobre os agrotóxicos divulgado ontem pela entidade. “Não há níveis seguros para o consumo dessas substâncias”, explicou Lacôrte. Outros testes, realizados ano passado, apresentaram dados semelhantes.
Um detalhe importante da análise é que os alimentos foram coletados em São Paulo e Brasília, o que, se de um lado concentra o alcance das amostras a dois lugares, de outro não significa nenhuma garantia de que no resto do país a realidade seja diferente. “O problema dos agrotóxicos está em todos os lugares”, atesta a especialista do Greenpeace.
Foram testadas 50 amostras, e em 30 havia resíduos tóxicos. Houve caso de alimento com sete tipos de substâncias diferentes, mistura que é chamada de “efeito coquetel” pelos pesquisadores. “O problema é que ninguém sabe o efeito que essas substâncias, todas juntas, pode fazer no organismo. Bem não faz”, afirmou Amir Bertoni Gebara, pesquisador do Instituto onde foram realizados os testes. Em 15 amostras detectou-se a presença do “efeito coquetel”.
Diante desse quadro, o que deve fazer o consumidor? Amir Gebara faz uma recomendação: lavar os alimentos “muito bem”, o que inclui no caso das frutas comidas sem casca (como laranja e melancia) até o uso de uma escova, para esfregá-las. Segundo ele, os itens que costumam ter mais resíduos de agrotóxicos são alface, couve, figo, goiaba, laranja, mamão, pêssego, pimentão e tomate.
Evidente que problema de tamanha gravidade não pode ficar restrito a recomendações para que o cidadão “lave muito bem” os produtos que leva para casa. É necessária a mobilização de todos para a adoção de medidas capazes de enfrentar a situação de forma a proteger o consumidor e a identificar e punir os responsáveis pelo uso ilegal das substâncias, seja na aplicação das dosagens, seja pelo emprego de agrotóxicos proibidos no país.
Neste momento em que vemos no Brasil discussões apaixonadas sobre questões que parecem dizer respeito apenas a pequenos grupos, é fundamental termos nossa atenção voltada para temas que afetam a vida de todos nós, como o de estarmos “comendo veneno” em nossas refeições diárias.

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