Um objeto inanimado

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 31/10/2017 03:00

Sobre a mesa de trabalho, a caixinha. É um pequeno objeto entre redondo e oval, esculpido numa só peça de madeira. Veio de longe, sobrevoou países, terras e mares, desaguou neste canto do Recife, tão distante das florestas azuis de onde veio. Foi encontrada por acaso, num final de manhã, quando os ambulantes do Mercado das Pulgas de Praga se preparavam a partir, recolhendo, sobre um velho tapete, o que sobrara das vendas do dia: peças de louça sem valor, talheres desparelhados, roupas usadas, livros escritos em idiomas desconhecidos, restos de lembranças, testemunhas de existências. Perdida no meio deles, a caixinha era puro esplendor. Na parte de cima, o artesão (pois, com toda evidência era um objeto feito à mão) pintara um buquê de flores. Formas diversas, pétalas cor de rosa, vermelhas, alaranjadas surgindo, surpreendentemente, de um mesmo talo de um verde delicado. Em torno, pequenas margaridas e botões de rosa. Nos lados da caixinha, três galhinhos de cereja. Na parte de baixo o artista inscreveu em letras douradas, seu nome, quase ilegível, algo como Reliko. E uma data: 4.6.1967. Imagino o que teria levado Reliko a dar forma ao pedaço de madeira e nele criar beleza, esculpir, pintar e decorar na caixinha a alegria das flores, a liberdade de misturar cores e formas, quando ao redor tudo era ainda incerteza, opressão e medo. Era uma noite, era um dia? A chamada Primavera de Praga ainda não acontecera, nem o socialismo com rosto humano sonhado por Dubchek e esmagado no sacrifício de Ian Pallach. Objets Inanimés, avez-vous donc une âme? (Objetos inanimados, vocês têm uma alma?) os versos do romântico Lamartine em Harmonias poéticas de repente retomam sua força e, como sempre acontece na poesia, recupera uma sua certa verdade. Sobre a mesa de trabalho, ao lado do computador, com sua luz agressiva, seu jeito moderno de se impor e de se tornar necessário, a caixinha florida pintada à mão, é uma doce presença no silêncio da noite do Poço da Panela, neste ano de 2017.

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