Portas

João Bosco Tenório Galvão*
bosco@tenoriogalvao.com.br

Publicação: 30/10/2017 03:00

Algumas delas são estranhas, não tem dobradiças nem fechaduras, se trasvestem em cortinas e, quando corridas  sobre um fato o escondem. Estar agindo atrás de uma porta ou  de uma cortina, é dirigir fatos e cenas sem deles participar. As portas são cheias de mistérios pois   são  dos céus e dos infernos. Algumas  assumem feições de grades,  que são portas terríveis e feias. Outras são  metálicas e maciças, servem até os elevadores que nos erguem ou nos trazem de volta ao chão. Existem portas secretas que guardam segredos, escondendo desejos, pecados e  fortunas. E portas de Igrejas onde os cegos e aleijados, em época de safra, fazem uma mísera colheita de esmolas. Portas que se abrem em oportunidades e outras que se fecham, matando esperanças e sonhos. As portas podem ser somente a travessia, de mudanças para o bem, para o mal e, quando largas, para o pior. As portas do pecado dizem ser belas, largas e de fácil transcurso, já as da virtude são estreitas, dificultosas e feias. Às vezes as portas se fecham atrás de nós como certidões de despedidas, ou se abrem como testemunhas de novas amizades e amores, emitindo sons alegres de suas dobradiças. Existem cidades famosas por suas portas. Jerusalém com a sua dourada que se abriu para o ingresso do Messias, conduzindo um jumento. E a de Sodoma por onde ingressaram os anjos punitivos da lascívia. Alguns saem a bater às portas num rosário de pedir favores, encontrando interlocutores surdos como a própria porta. Algumas são deixadas sempre abertas como preâmbulos de acordos e soluções de conflitos e nunca são arrombadas. Outras, renitentes no abrir, são forçadas no afã de superar proibições aos diversos anseios que nos movem. As portas quando mostradas indicam expulsão do recinto, é a despedida sob forma de desfeita, é o cidadão posto porta afora. As portas carregam em si o oito e o oitenta, servem de ingresso e de saída, fechadas podem ser proteção ou obstáculo, abertas são sinais de amizade ou retiro. Quando se cruzam portas travessas, como nos episódios da Lava Jato, o ilícito estará presente e quem as cruzar por último que as fechem, pois nos caminhos das perdições os malfeitos não permitem retornos. Existem as últimas portas de nossas vidas, as que se abrem para dar visão à grande vilã que é a morte. Essas são as últimas  que  atravessamos ingressando na eternidade, indo  de encontro ao paraíso de onde nunca seremos expulsos, pois o paraíso não possui portas, que são uma  invenção mesquinha da mente humana.

* Advogado

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