Semana com ansiedade, mas com saldo positivo para a economia

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 28/10/2017 03:00

A semana teve marcos importantes para o governo federal. Nos seus primeiros dias houve a votação no Congresso Nacional sobre o processo contra Temer. Apesar de com uma base de apoio reduzida, ainda assim o presidente saiu-se vitorioso. Perdeu a democracia e o avanço institucional do país, apesar de no curto prazo a economia ter sido beneficiada. Na sexta-feira o leilão de áreas do pré-sal gerou uma arrecadação de R$ 6,13 bilhões para o governo, algo que vai ajudar as contas do tesouro ainda esse ano. Também saiu a previsão de arrecadação com o Refis, que deve chegar a mais de R$ 6,0 bilhões, bem melhor do que as perspectivas catastróficas feitas pelo Ministério da Fazenda ao longo das discussões no Congresso. Para completar as boas notícias da economia, o Copom reduziu a Selic para 7,5% patamar historicamente baixo, cortando em 0,75% o seu valor. Ou seja, para a economia no curto prazo as notícias da semana foram positivas. Somente na esfera internacional, incertezas quanto ao comércio não renderam bons impactos na economia brasileira.

As preocupações então voltaram-se para o equilíbrio fiscal. A maioria dos analistas acredita que a meta de déficit primário para este ano será atingida (R$ 159,0 bilhões), mas para o ano que vem a situação está apertada. Por isso, a reforma da Previdência voltou à pauta, pois ela seria a solução de médio e longo prazos. Talvez mais cortes na Selic, com um pouco mais de ousadia, fosse uma solução boa de curto prazo, pois reduziria os gastos com juros, e reduziríamos o déficit nominal, que é o que faz crescer a relação dívida/PIB e gera inflação. Entretanto, tal sugestão não vai ser apresentada por analistas que gravitam em torno do setor financeiro. Tal solução não resolveria o problema, pois temos déficit primário elevado. Mas ajudaria no curto prazo e aceleraria o processo de recuperação da economia. Essa, por sua vez, ajudará na redução do déficit primário por causa do crescimento das receitas.

Em Pernambuco, os dados continuam mostrando uma economia com desempenho lento. Dados de setembro mostraram que a inadimplência dos empréstimos no estado continua caindo, e agora está menor do que a média nacional. Isso tem feito às custas de menor crédito para as empresas. Nos nove primeiros meses do ano o saldo médio de crédito para pessoa jurídica no estado foi de apenas 90% do valor nominal dos mesmos meses em 2016. Quando se corrige para a inflação, esses dados mostram que a queda do acesso a crédito das empresas foi monumental em Pernambuco. Para pessoas físicas, contudo, ele foi 5% superior em 2017 (nove primeiros meses).

A proporção de crédito no estado para o total do país está estável nos últimos três meses encerrando-se em setembro. Essa proporção é acima da participação do estado no PIB brasileiro, o que mostra que não há escassez de crédito relativa em Pernambuco, mas no Brasil inteiro. Entretanto, o setor privado não se beneficia dessa maior disponibilidade relativa de crédito em nosso estado. Ela é elevada pelos créditos a pessoas físicas. Aliviar a escassez de crédito talvez seja uma das medidas econômicas mais importantes a serem tomadas hoje. Não basta para isso reduzir a taxa Selic.

Após os acontecimentos da semana, uma aceleração na recuperação nacional deverá também beneficiar o estado. O Governo federal pode ser mais ágil nisso, com uma política monetária mais arrijada e menos pró-bancos. Mas, infelizmente, isso não está na pauta.

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