O que fizeram do país

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 27/10/2017 03:00

De 1946 a 1964, o Brasil viveu experiência democrática ainda hoje lembrada com saudade. Em 1964 houve a intervenção militar, que a maioria da população aplaudiu mas de que, depois, a partir de 1974, se cansou. Longa e árdua foi a jornada para conseguir a restauração da ordem democrática e civil. Quem viveu aqueles tempos lembra, com emoção, os embates dessa jornada– as anticandidaturas, a campanha das Diretas Já, a anistia, a imensa revisão do Brasil que foi a Constituinte... Da nova Constituição, de 1988 para cá, já são quase 30 anos de experiência democrática, muito maior do que o período exemplar de 1946 (apenas 18 anos).

E agora, perplexa, a nação pergunta sobre o que fizeram do país os políticos civis por cuja volta ao poder tanto lutou. Outro dia, um ousadíssimo declarou, atrás das grades em que se encontra, que o juiz Moro quis acabar com a classe política e conseguiu. É cínico e mentiroso. Quem é responsável pelo nojo que a nação sente hoje pela classe política são, visibilissimamente, os próprios políticos os quais – ressalvadas admiráveis exceções – vêm adotando comportamentos descarados e são, dentre os ladrões, os piores. Assaltaram órgão públicos – Petrobras, BNDES, fundos de pensões. Conluiaram-se com empresas privadas poderosas para desviar dinheiro público – Odebrecht, JBS... Inventaram formas rebuscadas de corrupção – “arenas” para a Copa do Mundo (esta também roubada), investimentos em países de terceiro mundo, de deficientes sistemas de controle. Instituíram roubalheira gigantesca e generalizada, sistemático e espantoso sistema de propinas nunca antes visto na história brasileira.

Não pensam senão, o tempo todo, em obter malas de dinheiro a mais. E, descaradíssimos, ainda querem aprovar uma legislação para que, apanhados na corrupção, sejam tão somente obrigados a devolver o dinheiro, sem serem presos. Não há paralelo, na história mundial, de tamanha desfaçatez, tão asqueroso atrevimento. Ora, de fato, para eles, prisão é muito pouco. Até prisão perpétua é pouco – por que a nação toda deveria pagar para manter, na prisão, esses patifões?.

Tão fabulosa é a quantidade de dinheiro roubado que há que concluir que o Brasil é realmente muito rico. Capaz de subsistir apesar de tantos milhões assim surrupiados dos cofres públicos. É claro que esse desvio criminoso implicou na preterição de muito investimento necessário e de muitos programas sociais, e, portanto, na perpetuação da pobreza e da injustiça. Mas é evidente que um país do qual podem ser subtraídas as quantias astronômicas que foram desviadas, é país muito rico.

O pior é o que fizeram com a democracia. Não têm, esses corruptos, a menor noção da importância que representa, para a vida comum, para todos os cidadãos honrados, a só existência e funcionamento das casas legislativas. Desmoralizados, desmoralizaram a política e os parlamentos, fazem o povo desacreditar das instituições e colocam em risco a própria democracia e os direitos e a liberdade de cada um de nós. Por isto mesmo, precisam ser urgente, radical e inapelavelmente vomitados.

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