EDITORIAL » O preço do apego desesperado ao cargo

Publicação: 26/10/2017 03:00

Desde que foi flagrado numa gravação pedindo R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, o senador Aécio Neves (MG) está licenciado do cargo de presidente do PSDB. Colegas o pressionam a renunciar à presidência, tornando definitivo um afastamento que hoje é só provisório. Um dos que defendem essa decisão é o presidente em exercício da legenda, senador Tasso Jereissati (CE). Ontem os dois reuniram-se para tratar do assunto. Aécio comunicou que não renunciará. Faltam apenas dois meses para acabar o seu mandato como presidente do partido, mas ele considera que a renúncia seria uma espécie de confissão de culpa. A consequência previsível é que nos próximos dias o PSDB deve continuar se digladiando sobre o assunto, gerando desgaste para todos.

Estamos falando de Aécio, mas o seu comportamento, nesse caso, é emblemático de uma prática comum na política — seus integrantes têm uma imensa dificuldade de abrir mão de alguma coisa. O raciocínio predominante entre muitos é que política comporta apenas acumulação, nunca subtração. A história recente, recentíssima até — no Brasil, no Recife, em Pernambuco, em diversos lugares — é pródiga em casos que mostram as consequências negativas que costumam recair sobre aqueles que se apegam desesperadamente a um cargo quando a decisão mais correta seria afastar-se dele, para tentar recompor-se e buscar mais adiante um retorno em melhores condições.

A política é, numa definição mais ou menos simplista, aquele lugar em que a cada quatro anos seus integrantes devem lutar pelo emprego que ocupam (oito anos, no caso dos senadores). Votos numa eleição não são como dinheiro depositado numa caderneta de poupança — são um capital político que precisa ser trabalhado ininterruptamente, e pode esfarelar-se diante de gestos equivocados ou situações desfavoráveis.

Dilma Rousseff foi reeleita para a Presidência da República, conquistou quase 52 milhões de votos, e acabou não resistindo a uma situação desfavorável, que culminou no seu impeachment. Aécio Neves foi um dos senadores mais votados do Brasil em 2010, com mais de 7,5 milhões de votos em Minas Gerais. Em 2014 conseguiu ir ao segundo turno das eleições presidenciais, sendo derrotado numa apertada disputa, quando conquistou 51 milhões de votos. Agora, segundo matéria da revista Veja, estaria cogitando disputar as eleições para deputado federal em Minas Gerais, num processo em busca da recuperação de sua biografia e da defesa do seu legado político no estado, onde foi governador. Numa situação dessas, que lhe é desfavorável, ele ainda está no noticiá rio como alguém que se agarra a um cargo partidário como se esta fosse a única alternativa disponível.

Em qualquer área, costuma ser ruim o resultado de avaliações equivocadas. Ao fazê-las, muitos pensam estar no caminho da salvação, quando estão em marcha célere rumo à danação.

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