Pedro Jorge não morreu

Gilberto Marques
Advogado criminalista

Publicação: 25/10/2017 03:00

Acordei cedo. Vi o dia nascer. Logo depois de mim, Mariana, com quatro dias, estalou a boquinha. Chamei Janice: Nana quer mamar! Entreguei uma à outra. Acompanhei, regalado, cada gesto. Hora do banho. Cheiro gostoso não fosse o éter no curativo da mãe.

Tomei café, peguei o jornal e corri pro trabalho (às 7h). Sem direito à licença paternidade, era o primeiro. Mas Becão, o servente, me precedia. O alcoolismo, crônico, afastara o prestimoso ajudante. Fizemos um pacto, na mesa de um bar. “Ao meio-dia, você desce pro lanche; tem 15 minutos; Às 12h30, mais 10”. O acordo foi cumprido. Após três meses, Becão era disputado na cúpula. Por onde anda Becão?

Finalmente sentei no bureau, 4 de março de 1982. Na primeira página do Diario de Pernambuco o choque: Procurador da República, Pedro Jorge de Melo e Silva, assassinado a TIROS. Inacreditável, não, apenas, pela juventude laboriosa, pela humildade dos gestos, da roupa, do sapato. Esperava o pregão, no corredor, com os advogados, testemunhas e até os réus. O lead, do Diario de Pernambuco, era perfeito. A referência ao Chevette hatch bege virou documento importante nos autos e no júri.

Atordoado, cheguei ao velório ainda deserto. Vi um casal compungido. Dona Heloísa e José Florentino, pais de Pedro Jorge. Levantei o lenço que cobria o rosto inerte. Era ele. Saí devagar e triste, consternado. No jornal da noite a viúva recusou o aperto de mão do procurador-geral. A cena forte marcou o evento até o fim. Por ironia, o cumprimento recusado veio da mão de Inocêncio Mártires.

No dia 5 de maio, Elias Nunes Nogueira, o atirador, foi preso e confessou diante das câmeras a empreitada. Um colega de faculdade e de escritório, também Elias, foi convidado a impetrar o habeas corpus. Minha intervenção ruidosa foi peremptória: Ou larga ou sai! É muito dinheiro, disse ele. – Esse dinheiro sujo de sangue não entra aqui, sentenciei. Elias ficou. Morreu na noite de São João do ano de 2000, dezoito anos depois, ainda comigo.

Dona Maria das Graças Viegas e Silva me escolheu como advogado, na Assistência de Acusação. Mantive a recusa e nunca apertei a mão do Inocêncio.

O processo teve grande espaço na mídia. A repercussão, surpreendente, correu o mundo. O martírio de Pedro Jorge, até hoje, sensibiliza e convoca enorme contingente de pessoas. Ficou claro na exibição do documentário dirigido por Ana Cláudia Dolores e Cláudia Holder. O MPF da 5ª Região e a Universidade Católica ressuscitaram o tema. A estreia, em 27 de março, lotou o cinema São Luiz. Cerca de mil pessoas, a maioria jovem, aplaudiu a película de pé. No dia 12 de outubro, completaram-se 34 anos da condenação. “Pedro Jorge não morreu. Ele se dividiu em milhares de pedaços. De cada pedaço, há de nascer um Pedro inteiro para continuar sua luta pela justiça”. Justiça sem mártir, sem herói. Obrigado meninas.

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