Em busca da verdade

Neuma Costa
Professora aposentada do IFPE

Publicação: 11/10/2017 03:00

Em meio à crise política e moral que afeta nosso país, ainda aturdidos pelo desdobramento das investigações sobre desvios de dinheiro público, temos que assistir a atitudes desvairadas e inconsequentes, como a do general de Exército, Antônio Hamiltom Mourão, em cujo depoimento constata-se a proposta de retorno à intervenção das Forças Armadas, como solução para o problema. Só mesmo quem não foi vítima de um tempo de trevas - o lado sombrio da história - tem a coragem de propor tal retrocesso.

Todos sabemos quanto custou ao cidadão do mundo a conquista da liberdade, parodiando os versos de Pessoa: “quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram, quantas noivas ficaram por casar”, para que nos tornássemos livres, para que pudéssemos expressar nosso pensamento, sem o fantasma da censura. Para ilustrar, lembramos a Revolução Francesa, no século XIII, marcha libertária, que teve como lema a tríade “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, e cuja maior conquista foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Lamentamos, porém, que nem sempre pudemos contar com movimentos históricos de conquista dos direitos humanos. Em muitos momentos da História, fomos assaltados por processos repressivos, como o que aconteceu no Brasil, no período de 64 a 85. Este movimento valeu-se de muita truculência, para saquear a dignidade e amordaçar todos aqueles que ousaram se contrapor aos princípios autoritários dos generais. Entre tantas vítimas desse massacre, lembramos o ex-governador Miguel Arraes de Alencar o qual, aconselhado pelos golpistas a baixar a cabeça e aderir à capitulação, assim respondeu: “o povo de Pernambuco nunca veria o seu governador descer para negociar o mandato que honrosamente conquistou nas ruas”. Foi preso e exilado, como tantos brasileiros que não se renderam à força do arbítrio.

Só mesmo quem não passou pelas torturas (comparadas aos campos de concentração nazistas), sente-se no direito de sugerir a volta da Ditadura Militar, que significaria a volta da covardia, como disse Flávio Brayner, em recente artigo, “quando após a execução, o corpo do executado desaparece, estamos diante da suprema covardia, que não é fugir da ação ou fugir dos outros: é fugir de si mesmo”. Mas os que procuram reescrever a História haverão de retirar a fumaça que esconde os fatos, para desvendar os mistérios e mostrar às futuras gerações a importância da convivência em liberdade.

A busca pela memória e pela verdade tem sido o foco persistente de muitos pesquisadores, de diferentes áreas de conhecimento, a exemplo da CEMVDHC (Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Helder Camara). A propósito, os membros desse admirável Projeto reuniram autoridades e cidadãos comuns, em solenidade no Palácio do Campo das Princesas, para apresentarem o Relatório Final, onde narram histórias de violações sofridas por muitos brasileiros, alguns deles continuam desaparecidos, como nosso conterrâneo Fernando Santa Cruz, cuja família não teve nem mesmo o direito de lhe enterrar o corpo.

Lembramos também o documentário - Aurora 1964 - do diretor italiano Diego Di Niglio, debruçado durante anos sobre investigações, para mostrar que, nos momentos de crise, a arte se fortalece como instrumento de transformação social e cultural. Em entrevista ao jornal A Verdade, ele assim se pronuncia: “Eu vejo muito o poder que a arte tem quando é relacionada à política, ao compromisso”. Este documentário lotou o cinema São Luís, ao mesmo tempo em que emocionou esta multidão, ávida por conhecer a verdade, para deixar aquele espaço com maior confiança na justiça dos homens.

Felizmente, podemos contar com muitos projetos, como os referidos acima, os quais procuram denunciar a tirania dos que usam mordaças, para impedir a fala livre dos cidadãos. Se alguma voz ainda se levanta em defesa dos que se impõem pela força e pela violência, certamente, é porque não conquistou ainda a verdadeira liberdade, essa experiência existencial somente possível através de um compromisso político, ao qual se entrega o homem, na luta por justiça e paz.

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