Bichos e gente

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 10/10/2017 03:00

Semana passada, na Matriz da Casa Forte, celebrou-se o dia de São Francisco aquele que amava a água, o sol, as plantas; Que à Lua chamou irmã. Um poeta, como se vê nos escritos que lhe são atribuídos, aliás nem todos de sua lavra, como se sabe: a oração de São Francisco, por exemplo, surgiu em 1913 na França, de autor desconhecido. A vida do pobrezinho de Assis foi objeto de três belos filmes de diretores italianos: Rosselini, Liliana Cavani e Franco Zefirelli, dois comunistas e um católico. Na prédica do dia, depois de comentar a vida de São Francisco, o padre  falou de seu grande carinho pelos seres mais desprotegidos, entre eles os animais, que dividem conosco o estar no mundo aqui e agora. Um fato aliás sempre lembrado por nossos irmãos que vivem apartados do que se convencionou chamar de civilização, e em comunhão com as matas e os bichos, os índios, os verdadeiros donos da terra. Depois da missa, houve a bênção de alguns animais domésticos, trazidos à igreja pelos donos comovidos, fato que mereceu críticas. Uma senhora comentou: onde já se viu? Lembrei: o cordel O enterro do cachorro, que inspirou a Ariano seu maior sucesso teatral, descreve fato realmente acontecido. E nem foi preciso falar de nossa dívida de afeição para com esses chamados irracionais: o cachorro “guloso e terno”, sobre a pata do qual o poeta Paul Eluard escreveu a palavra Liberdade, proibida pelos nazistas. E nem precisei lembrar a beleza e a ternura imanada da prece para ir ao paraíso com os burrinhos, do grande Francis Jammes. E nem foi preciso lembrar as lições de companheirismo, de perdão, de fidelidade que todos conhecemos, de animais que salvam vidas, que afastam a solidão de pessoas excluídas ou deixadas de lado, por parentes, pela sociedade.  Vez em quando os jornais noticiam ações de boas almas que se dedicam a cuidar e proteger animais, às vezes às custas de seu magro salário. Pessoas que, afinal de contas estão simplesmente repetindo o que aprenderam do poverello de Assis.

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